Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Educação

Racismo climático, feminismo e “brancos que me perdoem”: a prova para cota trans da UFSC

Enquanto o processo seletivo geral da UFSC teve 80 questões, perguntas discursivas e redação, a prova para cotas teve 30 perguntas e redação com tema “racismo climático
Enquanto o processo seletivo geral da UFSC teve 80 questões, perguntas discursivas e redação, a prova para cotas teve 30 perguntas e redação com tema “racismo climático (Foto: Reprodução/UFSC e Gustavo Diehl/UFSC )

Ouça este conteúdo

“Racismo climático”, feminismo e “reparações históricas” foram alguns dos temas abordados na prova da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para candidatos da cota para transgêneros. A “cota trans”, como foi chamada, foi denunciada ao Ministério Público Federal (MPF) na última semana, após uma ex-major da Polícia Militar (PM) passar em Medicina por meio desse processo seletivo extra.

A universidade realizou a prova para pessoas trans em novembro de 2025 e disponibiliza em seu site cópia do questionário aplicado. Enquanto o vestibular tradicional da universidade teve 80 questões, perguntas discursivas e redação, essa prova especial apresentou 30 perguntas e redação.

O tema proposto para dissertação foi “racismo climático”, e os candidatos poderiam escrever sobre os impactos da crise climática na sociedade e a desigualdade, ou fazer um “relato pessoal” do impacto que dessa crise em sua vida.

Para isso, a prova apresentava um texto de apoio sobre “justiça climática”, uma imagem questionando “o que é o racismo climático?” e um quadro sobre “ansiedade climática”, doença que afetaria, principalmente, “gerações mais novas”.

Já o restante da prova foi distribuído em 10 perguntas de língua portuguesa e 20 de conhecimentos gerais, com a primeira questão abordando o tema do racismo. “Tinha ouvido falar que chamavam a mesinha ao lado da cama de ‘criado-mudo’ porque antigamente quem ficava ao lado da cama dos senhores era uma pessoa escravizada”, informa o texto a ser interpretado pelo candidato.

A primeira questão da prova da UFSC para cotas abordou o tema do racismo. Imagem: Reprodução/Site/UFSC

“Independentemente de quando deram o nome para o móvel, com certeza foi pensado nos empregados e nas empregadas que inventaram esse ‘criado-mudo’. Eu, de certa forma, fui criada-muda. Não seria mais”, continuava o trecho da prova de português que, logo abaixo, faria referência a “brancos”.

Em texto a respeito da pandemia de Covid-19, usado como base para outra questão, o autor seria questionado a respeito do que teria aprendido com esse momento vivido entre 2019 e 2021.

“Por que você acha que ela [a pandemia] deveria ensinar algo? A pandemia não vem para ensinar nada, mas para devastar as nossas vidas”, afirmou. “Os brancos que me perdoem, mas eu não sei de onde vem essa mentalidade de que o sofrimento ensina alguma coisa”, continuou o texto.

Um texto da prova de português usou a frase “brancos que me perdoem”. Imagem: Reprodução/Site/UFSC

Prova para "cota trans" também abordou feminismo e reparações históricas

Já outro trecho da prova apresentou alguns significados da palavra “autoritária”, apontando que esse termo seria usado para “pessoa em cargo de chefia que se apoia na autoridade, na prerrogativa e no poder de comandar”, porém, “com o defeito de não ser do gênero masculino”.

Outro trecho do processo seletivo abordou o tema do feminismo. Imagem: Reprodução/Site/UFSC

O mesmo texto dizia que a palavra “autoritária” se referiria à “mulher que impõe respeito e obediência” e que geraria “pânico e desespero entre os defensores dos padrões normativos de gênero”.

A prova da UFSC para “cota trans” ainda apresentou uma tirinha a respeito da necessidade de realizar “reparações históricas”, termo utilizado com frequência por militantes de esquerda para descrever ações que poderiam ser adotadas no presente para atenuar supostas injustiças cometidas no passado contra negros e povos indígenas.

Reparações históricas, frequentemente citadas em discursos da esquerda, também foram citadas. Imagem: Reprodução/Site/UFSC

Uma das maneiras apontadas por ativistas de esquerda para proporcionar tais reparações são as cotas em universidades, tema que também foi apresentado em outra questão da prova.

Em um infográfico, foi apresentado o crescimento de 266,4% na quantidade de matrículas de estudantes em universidades federais contemplados por cotas. Os dados se refeririam aos últimos 11 anos e indicariam salto de mais de 1.000% no número de concluintes do ensino superior desde a implementação dessa política pública.

A prova para "cota trans" também abordou o tema das cotas universitárias. Imagem: Reprodução/Site/UFSC

Cota trans foi denunciada ao MPF por inconstitucionalidade

Em denúncia realizada ao Ministério Público Federal (MPF) a respeito das cotas para pessoas trans, a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) apontou que destinar vagas de uma universidade pública a “pessoas autodeclaradas trans” só poderia existir por lei, conforme estabelece o artigo 37 da Constituição Federal (CF). “E não existe lei federal criando cotas por identidade de gênero”, apontou a parlamentar em suas redes sociais.

Júlia ressaltou ainda que a autonomia universitária estabelecida pelo artigo 207 da Constituição não autoriza nenhuma universidade a “inovar na ordem jurídica” e que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu sobre o tema. “Por isso representei ao MPF: para restaurar a legalidade e a isonomia no acesso às vagas federais”, disse.

Cotas trans são amparadas por resoluções do Conselho Universitário da UFSC

Em nota divulgada em seu site, a UFSC afirma que suas políticas de ações afirmativas, em especial no que se refere às vagas suplementares destinadas a pessoas trans, são amparadas por resoluções do Conselho Universitário, pela legislação federal vigente, por critérios previstos em editais e pelo reconhecimento reiterado de sua validade pelo Poder Judiciário.

VEJA TAMBÉM:

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.