
A discussão entre uma agente de trânsito e um policial militar em Curitiba, que acabou na delegacia no dia 10, mais uma vez trouxe à tona a frequência preocupante com que os profissionais da Secretaria de Trânsito (Setran) se veem envolvidos em casos de ameaças e agressões nas ruas da capital. Apesar de a secretaria não repassar estatísticas sobre o número de situações em que o bate-boca desanda para a grosseria de ambos os lados , os próprios agentes e diretores da pasta reconhecem que os xingamentos fazem parte da rotina de trabalho. Tanto que, recentemente, os servidores da Setran criaram uma Comissão de Valorização dos Agentes, com uma missão um tanto quanto ingrata: convencer os condutores curitibanos de que não são meros "multadores".
A intenção da comissão, que se reunirá com a direção da Setran na terça-feira, é buscar alternativas para reforçar a imagem do agente de trânsito como um profissional preocupado, acima de tudo, em orientar e ajudar quem está atrás do volante ao invés de somente punir. A necessidade de melhorias no relacionamento com os motoristas encontra respaldo nas histórias compartilhadas pelos próprios agentes.
"Há mais de três anos fui agredida porque autuei um motorista que havia estacionado em um local proibido. Hoje em dia convivo com a Síndrome do Pânico, já fiz até tratamento. Você bate o teu cartão, coloca o uniforme, mas não sabe como vai voltar ao fim do dia", relata uma agente de trânsito que atua em Curitiba há mais de 20 anos e prefere não se identificar.
No início deste mês, uma nova discussão a levou a uma delegacia junto com outros dois colegas de trabalho e um motorista gaúcho, que havia estacionado em uma vaga destinada à Polícia Militar junto à Praça Tiradentes. Os três agentes foram acusados de abuso de autoridade pelo condutor. Em audiência no Juizado Especial Criminal de Curitiba, porém, o juiz entendeu que a ação do trio foi legítima.
O diretor de Fiscalização da Setran, Eder Carlos Rodrigues, afirma que apesar das agressões físicas se restringirem a "um ou dois casos por mês", não há um dia que passe sem algum agente notificar um xingamento ou ameaça. "Há uma cultura equivocada de que os agentes só servem para multar, o que não é verdade. Eles tentam ao máximo ter contato com o motorista, para orientar e só num outro momento, se necessário, fazer a autuação", reforça Rodrigues.
Caso de políciaDiscussão entre PM e agente é investigada por delegacia e Corregedoria
A discussão entre o policial militar que estava em uma viatura descaracterizada e a agente de trânsito que o abordou na Rua Doutor Pedrosa, resultou em acusações de ambos os lados. O policial formalizou um termo circunstanciado por desacato de autoridade, enquanto a mulher lavrou uma denúncia de agressão. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar.
Boletim de Ocorrência
Situações de ameaças e xingamentos são registradas internamente pelo próprio agente na Secretaria de Trânsito (Setran).
Em casos mais graves, que resultem em agressões, o servidor é orientado a fazer um Boletim de Ocorrência para, após isso, o caso ser discutido na Justiça, normalmente no Juizado Especial Criminal.
"Em boa parte dos casos de agressão nem sequer há discussão entre o agente e o agressor. Simplesmente a pessoa é multada, acha o agente e então o agride. O motorista vê o agente como um invasor do direito dele de dirigir pela cidade como ele bem entende", relata o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Urbanização do Estado do Paraná (Sindiurbano), Valdir Mestriner.



