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Cultura local

Remadas no Tanque do Bacacheri

Originalmente privado, espaço foi desapropriado pela prefeitura em 1988: a população já havia adotado o lugar como opção de lazer

Remos a postos: represa era lugar de grande movimento aos domingos na década de 1940 | Reprodução
Remos a postos: represa era lugar de grande movimento aos domingos na década de 1940 (Foto: Reprodução)
Estância de Caxambú, em 1868:

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Estância de Caxambú, em 1868:

Ewaldo Stutz fez aquela pose para a foto, com os dois remos à mão, e consagrou uma imagem do que era o lazer em Curitiba por volta de 1940: grande parte da população aproveitava o único dia de folga, o domingo, para viajar até o Tanque do Bacacheri e ali nadar na represa artificial, pescar e remar em barcos que eram alugados no local. Como para chegar lá era preciso viajar, por causa da distância, as famílias se planejavam: o piquenique era a garantia de um dia todo com as crianças brincando dentro ou às margens do lago de 80 mil metros quadrados.

Não se sabe exatamente a data de criação da represa, iniciativa do proprietário da área, Manoel Fontoura Falavrinha. Uma foto de 1904, contudo, mostra que já neste período o lago existia como opção de lazer na capital paranaense. Para faturar com isso, Lavrinha montou um pequeno comércio, onde alugava remos e barcos.

Nautimodelismo

Famílias iam à debandada para o tanque nos fins de semana, afinal não havia televisão nessa época. Existiram ali campeonatos de natação e de nautimodelismo (barcos com controle remoto). Quem gostava de se atirar na água contava com um trampolim instalado depois de um trapiche que levava os nadadores até as partes mais fundas do tanque, de 2,60 metros de profundidade. Para a troca de roupas – já que até lá as pessoas iam com trajes sociais – havia cabines. Os chegados na pesca podiam se arriscar a pegar carás, lambaris, carpas, jundiás e traíras.

Além do Tanque do Ba­­cacheri, outra opção de lazer relacionado com água em Curitiba, no início do século 20, era o Rio Uvu, em uma propriedade particular do Cascatinha. "O Passeio Público tinha lago, mas era mais para contemplação. As pessoas se dirigiam ali também porque havia um coreto", lembra a professora do curso de Educação Física da Universidade Fe­­deral do Paraná Simone Rechia, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Lazer, Espaço e Cidade.

O sucesso do tanque foi tamanho que a prefeitura ficou de olho na área – havia ainda um bosque preservado de 100 mil metros quadrados. Logo começou a negociação para a desapropriação do espaço e, em 1988, após o desembolso de 500.269.984 cruzeiros, o tanque e a área verde foram readequados e viraram o Parque do Bacacheri, oficialmente com o nome de Parque General Iberê de Mattos – em homenagem ao antigo prefeito da cidade. A inauguração contou com a 1ª Revoada Nacional de Velhas Águias (aviões da época).

Primeiros mergulhos eram "medicinais"

As primeiras experiências de mergulhar o corpo na água em espaços públicos foi com o intuito medicinal. No Brasil, as primeiras notícias que aparecem sobre o poder curativo das águas são por volta de 1730, com o padre Antonio Monteiro Freire, que descreve ao vice-rei do Brasil o "estranho poder curativo das águas termais."

O marco oficial da construção de cidades termais ou de balneários veio apenas em 1818, pelo rei D. João VI, que ordenou construir um hospital termal em Caldas de Cubatão. "Há uma experiência da princesa Isabel e do Conde d’Eu, que se puseram, na estância de Caxambú, em 1868, para tratamento da infertilidade. Logo após, as águas tiveram visitação crescente", explica o professor do curso de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia Edson Fernandes D’Oliveira Santos Neto, que estudou em sua dissertação a criação da estância de Cipó. Edson lembra que os tratamentos termais sempre buscaram unir o lazer e a terapia, porque acreditava-se que o tratamento corporal não podia ser isolado da mente.

É justamente neste período, em que se propaga a notícia de que a água faz bem para o corpo e a alma, que as práticas de lazer em mar ou em lagos e rios começaram a se espalhar pelo Brasil e influenciaram a população a mudar suas práticas de lazer. "Isso passa a ter menos importância depois da 2.ª Guerra Mundial, com o desenvolvimento da penicilina e de antibióticos. Mas, mesmo assim, ainda hoje existem muitas cidades termais que ainda se dedicam exclusivamente a isso. A mais conhecida é Poços de Caldas, em Minas Gerais", lembra Edson.

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