
As famílias e autoridades aéreas que anseiam pela verdade sobre o acidente com o voo 447 da Air France ainda terão de enfrentar entre três e quatro semanas de espera. O Escritório de Investigação e Análise (BEA) da França anunciou ontem que este será o prazo para o início da quinta fase de trabalhos no Oceano Atlântico, que compreenderá o recolhimento dos destroços do Airbus A330-200, a busca pelas caixas-pretas e o recolhimento dos corpos de vítimas. Peritos avaliam 13 mil fotos para avançar nas investigações.O mistério do desaparecimento do voo AF-447 começou a ser desvendado ao público na tarde de ontem, quando o BEA convocou a imprensa para apresentar menos de uma dezena de imagens, das 13 mil já coletadas por robôs submarinos que atuam neste momento sob o comando de uma equipe de peritos do Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), dos Estados Unidos. E as fotografias feitas desde a noite de sábado, quando os objetos foram localizados, não deixam dúvidas: mostram um trem de pouso, duas turbinas, uma asa, pedaços da fuselagem e destroços em geral da aeronave. "Temos muitas imagens, algumas tiradas a distâncias de dez metros das peças, mas ainda estamos processando seu conteúdo", afirmou o diretor do BEA, Jean-Paul Troadec. "Vamos continuar fazendo novas imagens, as mais precisas possíveis, para auxiliar na investigação", completou.
As partes do Airbus se espalham por uma área de 200 metros de largura por 600 de comprimento, em uma região plana situada a 3,9 mil metros de profundidade a uma distância em torno de 60 a 80 quilômetros ao norte do último ponto conhecido de voo do AF-447. A situação precisa do sítio não foi revelada pelo BEA para evitar expedições científicas que possam atrapalhar os trabalhos de buscas.
Além de peças metálicas, o Ministério dos Transportes da França confirmou que corpos de alguns dos 228 passageiros e tripulantes também foram localizados. A informação foi transmitida às famílias na noite de domingo, quando se confirmou que as imagens se referiam de fato ao voo AF-447. Ainda não é possível conhecer o número de corpos, já que a análise das imagens é incipiente.
Licitação
Feita a identificação do aparelho, uma nova etapa de buscas, a quinta desde o acidente, foi lançada, com a publicação de uma licitação de urgência pelo governo francês para a seleção do navio que fará a coleta dos corpos e das peças da aeronave. "A fase de retirada do avião poderá ser lançada em três semanas, um mês", estimou a ministra dos Transportes, Nathalie Kosciusko-Morizet.
A seguir, terá início a etapa de identificação das vítimas e de interpretação dos dados das duas caixas-pretas da aeronave, ainda não localizadas. Segundo os peritos do BEA, é essencial recuperar os dois gravadores o Flight Data Recorder (FDR), que registra os parâmetros de voo, e o Cockpit Voice Recorder (CVR), que grava os sons na cabine de pilotagem para que se possa esclarecer totalmente as causas do acidente. "É essencial dispor dos gravadores de bordo para determinar o cenário", reiterou Alain Bouillard, diretor de investigações do BEA.
De acordo com o perito, as imagens de vídeo e as fotografias feitas até aqui pelo robô submarino não permitem avançar nas conclusões. "Agora vamos poder coletar novas informações e com um pouco de sorte vamos encontrar as caixas-pretas, que poderão nos permitir determinar as causas do acidente", argumentou. "O que constatamos é que a maior parte dos destroços está concentrada, o que não é contraditório com o que já havíamos concluído em nossos relatórios."
Descoberta reabre luto das famílias de vítimas
A localização dos destroços do voo AF-447 provocou ao mesmo tempo esperança e dor entre parentes de vítimas francesas. Para muitos, a esperança é de que, enfim, a verdade sobre o acidente seja conhecida. Mas para outros parentes as buscas ao Airbus A330 representam também a reabertura do processo de luto e a difícil perspectiva de lidar com a identificação dos corpos e com os sepultamentos.
Essas sensações foram transmitidas por parentes de vítimas que acompanharam, na sede do BEA, no aeroporto de Le Bourget, periferia de Paris, a entrevista coletiva sobre a localização dos destroços. Ao término na conferência, todos deixaram claro que lidar com o tema ainda é um peso constante, mesmo 21 meses após o desastre.
Jean-Baptiste Audousset, presidente da associação Ajuda Mútua e Solidariedade, que reagrupa famílias de vítimas, disse que a localização dos destroços reforça uma expectativa de muitos parentes: a da descoberta das causas e a punição dos responsáveis por eventuais falhas mecânicas e eletrônicas. "É importante para as famílias saber como nossos parentes nos deixaram. Mas é importante também tirar as lições desse episódio e, sobretudo, impedir que tragédias como essas se reproduzam no futuro", afirmou.
Gwenola Roger, também familiar de vítima, se disse surpresa com o sucesso das buscas e satisfeita com a perspectiva de entender as causas da tragédia. "A investigação deu um passo de gigante. É uma pena que os trabalhos de busca dos destroços só vão começar em um mês, mas esperamos que eles possam ajudar a descobrir a verdade e aumentar a segurança aérea." Para ela, também é importante saber como foram os últimos minutos de vida dos passageiros, de forma a ter uma ideia do que viveram e sentiram. "É uma nova etapa, muito dolorosa, que nos espera. Não era um luto fácil, porque não sabíamos o que tinha acontecido. Agora encontramos o avião, e há corpos dentro. É uma nova dor."Já Robert Soulas, pai de uma jovem vítima e genro de outro, também valoriza a descoberta, mas diz que preferiria que o casal permanecesse junto no fundo do mar do que localizar apenas um dos dois corpos. "Haverá um período de identificação que será muito doloroso para as famílias. É um traumatismo que se abre novamente", disse. "Por dois anos tentamos lidar com essa ausência. Agora, teremos de lidar com os corpos. É muito doloroso."




