
Lançado pelo governo federal em 2007 com a missão de reestruturar universidades e ampliar o acesso dos brasileiros ao ensino superior público, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) cumpriu a segunda parte das promessas.
O número de vagas oferecidas anualmente aumentou 63%, passando de 148.796, em 2006, para 242.893, em 2010 dado mais recente do Ministério da Educação (MEC). Os investimentos, porém, não chegaram junto com os alunos. As primeiras turmas dessa expansão estão deixando as universidades depois de atravessarem o curso com bibliotecas desabastecidas, sem aulas em laboratórios, salas superlotadas e professores assoberbados. O MEC admite problemas de infraestrutura, mas alega que eles ocorrem por causa do pioneirismo do Reuni, "um dos programas de maior sucesso da história da educação do país."
As condições precárias de trabalho, agravadas pelo Reuni, estão entre as principais reclamações dos professores das federais, em greve desde 17 de maio. São aulas em contêineres e porões, laboratórios improvisados em banheiros e falta de restaurantes universitários. A estudante de Terapia Ocupacional Larissa Reis, de 19 anos, conta que está no terceiro semestre do curso e tem aulas em laboratório a cada 15 dias. "É muita gente e o professor divide a turma em duas. Ele dá a mesma aula duas vezes", conta. Larissa é estudante do câmpus de Ceilândia da Universidade de Brasília (UnB), que funciona provisoriamente em 13 salas de uma escola de ensino médio. O barulho dos adolescentes, afirma ela, atrapalha as aulas.
Professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro elaboraram um dossiê com fotografias e o encaminharam ao Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes). As imagens mostram salas de prédios recém-construídos com rachaduras, órgãos de animais cobertos por larvas, por causa da falta de formol, e a fachada do câmpus principal deteriorada a Reitoria informa que as rachaduras não oferecem risco e a obra no prédios antigos estão para ser licitadas.
O professor de Anatomia Animal Luciano Alonso diz que os alunos são obrigados a lidar com peças de animais apodrecidas, por falta de material para conservação. "Técnicos, alunos e professores se expõem a pegar infecção", conta.
A falta de estrutura e de professores levou alunos do curso de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro a decretarem greve em abril, no câmpus de Macaé (RJ). "Somos a primeira turma do curso. Até a metade do primeiro período, só tínhamos um professor, de Bioquímica", conta Larissa Costa, aluna do sexto período. Até agora, os estudantes não tiveram aula em laboratório de Anatomia com cadáveres nem em hospital de referência. "A essa altura, nós precisávamos estar inseridos no atendimento hospitalar", lamenta.
Os alunos do quinto e sexto períodos foram transferidos para o Rio e não se sabe se vão concluir o curso no câmpus sede. A reitoria informou que o laboratório de Anatomia em Macaé ficará pronto em três meses.
IFPR volta às aulas em dez câmpus
Os professores de 10 dos 14 câmpus do Instituto Federal do Paraná (IFPR), incluindo o de Curitiba (foto), voltaram às aulas ontem depois de mais de dois meses em greve. Em Londrina, Paranaguá, Paranavaí e Ivaiporã, os docentes não acataram a orientação e as aulas continuam suspensas.
Segundo o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Carlos Edilson de Almeida Maneschy, além do IFPR, apenas mais duas instituições votaram em assembleia pelo fim da greve: Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Capes
Os funcionários da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) aderiram ontem à greve federal em apoio ao movimento em prol do plano de carreira na área de Ciência e Tecnologia. Ligada ao MEC, a Capes é a maior financiadora de bolsas de mestrado e doutorado.



