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Religião

Santa desobediência

Monsenhor Luiz de Gonzaga Gonçalves veio do interior paulista para Curitiba com recomendação médica: descansar. Mas foi na capital paranaense que o padre, que completa 60 anos de sacerdócio, botou a mão na massa para valer

A paixão de monsenhor Luiz pela liturgia se manifesta nas missas bem celebradas, de acordo com o missal, e no cuidado com os detalhes da Igreja da Ordem | Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
A paixão de monsenhor Luiz pela liturgia se manifesta nas missas bem celebradas, de acordo com o missal, e no cuidado com os detalhes da Igreja da Ordem (Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo)

Há quem conte os meses antes de completar os 30, ou 35 anos necessários para a aposentadoria. Mas que ninguém venha falar de descanso ao monsenhor Luiz de Gonzaga Gon­çalves – para ele, o sacerdócio é pura vocação, e não trabalho, tanto que ontem comemorou 60 anos de ordenação e não pensa em largar a estola no cabide tão cedo. Ele é padre, jornalista (com registro no Ministério do Trabalho e tudo), e se alguém disser empreendedor também não estará mentindo.

Aos 85 anos, monsenhor Luiz é praticamente testemunha da história recente da Igreja Católica. Quando foi ordenado, em 1949, na cidade paulista de Jaboticabal, reinava em Roma o Papa Pio XII. Depois viriam João XXIII, Paulo VI, os dois Joões Paulos e o atual, Bento XVI. Por exatamente 20 anos, monsenhor Luiz rezou apenas a missa codificada por São Pio V no século 16 – orações ao pé do altar, latim (exceto nas leituras e na homilia), padre virado para o sacrário, "conduzindo os fiéis numa procissão rumo ao céu", nas palavras do cardeal Ratzinger, antes de se tornar Papa. "Sinto saudades de algumas coisas daquela época, como as procissões, muito mais volumosas, e alguns movimentos que eram fortes, como as Congregações Marianas, de devotos de Nossa Senhora, e a Ação Católica, de leigos evangelizadores", relembra.

Foi a necessidade de tranquilidade que tirou monsenhor Luiz do interior paulista e o trouxe a Curitiba, em 1972, por recomendação médica. A ideia era descansar ao lado do irmão, que era bispo auxiliar. Se o médico algum dia chegou a tomar conhecimento daquilo que seu paciente faria por aqui, não se sabe. O certo é que um antigo colega de seminário achou um serviço sob medida para o padre recém-chegado. Dom Pedro Fedalto, arcebispo de Curitiba à época, pediu que monsenhor Luiz assumisse a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, no Tarumã. A igreja tinha um projeto grandioso, mas estacionado, para a construção de um novo prédio. O novo pároco desengavetou os planos. Levou mais de uma década, mas o trabalho e a determinação resultaram no edifício inaugurado em 1988. "Só ele mesmo poderia construir algo assim, e ninguém mais", aprova dom Pedro, hoje arcebispo emérito da capital.

Padre disputado

As notícias do padre empreendedor devem ter chegado a Ja­­boticabal, porque o bispo de lá o chamou de volta, para assumir a paróquia de Monte Alto, mas o apelo da capital paranaense falaria mais alto. Não é todo padre que pode se gabar de ser disputado por dois bispos: dom Pedro o convocou mais uma vez, em 1994, para a reitoria da Igreja da Ordem, a mais antiga da cidade. O monsenhor logo percebeu que se tratava de mais um desafio. "É uma igreja pequena, não tinha a capacidade física para crescer, mas a igreja precisa acompanhar o desenvolvimento da cidade ao seu redor, ainda mais uma como a da Ordem", define. A solução foi tornar a igrejinha mais relevante. Não bastava ser a mais antiga da cidade, ela precisava ser um "para-raio de bênçãos para a cidade", como costuma dizer.

Começou então uma longa batalha. Após várias campanhas para arrecadar o dinheiro necessário, foi possível comprar o terreno aos fundos da igreja em 2001. "É um homem muito corajoso na fé, porque confiou e conseguiu comprar o terreno, e começou a construir sem perspectiva de entrega. Teve de fazer dívidas, mas hoje elas estão todas quitadas", elogia dom Pedro. O trabalho de anos se transformou no Cenáculo Arquidiocesano. No prédio, hoje quase concluído, são realizadas adorações eucarísticas noturnas, além do trabalho social de aulas de informática e música a crianças carentes e de alfabetização de adultos.

Coral gregoriano

Para muitos, o Cenáculo é a realização mais grandiosa do monsenhor Luiz na Igreja da Ordem. Mas nem de longe é a única. Amante de uma liturgia bem celebrada, o sacerdote lamentava o esquecimento ao qual o canto gregoriano havia sido relegado desde a reforma litúrgica de 1969, quando foram autorizadas as missas nos idiomas nacionais. Para quem já havia tirado dois edifícios do nada, um coral não devia ser tão complicado. "Ele me pediu para formar um coral de canto gregoriano e eu não entendia nada sobre o assunto. Foi um desafio que topei, mas começamos bem perdidos", conta, aos risos, Maria Madalena Wagner, maestrina do coral que canta todo domingo, às 10 horas, com repertório em latim, grego e português, com acompanhamento do organista Ricardo Hermann.

Em 2007, o Papa deu um presente a toda a Igreja, mas que parecia feito sob encomenda ao padre que veio a Curitiba para descansar e passou a perna no médico: a liberação universal do rito anterior a 1969, aquele, das duas primeiras décadas de sacerdócio de monsenhor Luiz, e que até então só podia ser celebrado com autorização do bispo local. O decreto papal saiu em julho, e entraria em vigor em 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz. Monsenhor Luiz nem esperou. Pediu ao arcebispo, dom Moacyr Vitti, o indulto para celebrar a missa tridentina naquele espacinho de dois meses até a permissão total. "A adoção do rito matou as saudades da minha juventude", diz. E trouxe novos amigos, unidos ao sacerdote pelo respeito à liturgia católica. Recentes ou antigos, os amigos se reunião hoje, às 10 horas, naquela mesma igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Tarumã, para agradecer pelo padre empreendedor.

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