Médicos psiquiatras e a população consideram a assistência em saúde mental no serviço público limitada e de difícil acesso. É o que mostra um estudo inédito do Instituto Datafolha, apresentado ontem no primeiro dia do 24.° Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que está sendo realizado em Curitiba. Entre os entrevistados que buscaram atendimento público, 47% consideraram difícil o acesso aos serviços.
Embora o resultado da pesquisa confirme a percepção geral sobre o tema, o estudo é importante porque documenta a realidade brasileira, afirmam especialistas. "A pesquisa é inédita e pode ser o passo inicial para a reformulação das políticas de saúde mental no país", afirma o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Josimar França. A ausência de estatísticas confiáveis no setor e a falta de conhecimento da população sobre o tema são consideradas as principais dificuldades enfrentadas.
De acordo com o estudo, 84% dos médicos psiquiatras entrevistados dizem que a quantidade de serviços de assistência em saúde mental é limitada e não atende às necessidades da população. Das 2.267 pessoas entrevistadas, 9% disseram ter problemas mentais ou algum familiar que teve problemas no último ano, o equivalente a 17 milhões de pessoas. Desse total, 72% das pessoas que precisaram de atendimento buscaram tratamento no setor público. "Esse resultado vem ao encontro das nossas preocupações com este setor em especial, pois como o tratamento de saúde mental é muito oneroso, as pessoas acabam procurando o serviço público", explica o coordenador do Centro de Estudos Paulista de Psiquiatria, Sérgio Andreoli.
Das pessoas que buscaram atendimento público, cerca de 7% não conseguiram atendimento. Já aproximadamente 45% consideraram o acesso fácil, diante dos 47% que o consideraram difícil ou seja, a maioria consegue atendimento, mas encontra dificuldades.
A pesquisa também revelou que houve uma migração da oferta dos serviços em hospitais para os serviços comunitários de saúde. Em 2003 existiam cerca de 450 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) no Brasil. Hoje, são cerca de 900. "Somos favoráveis à ampliação do atendimento extra-hospitalar, mas essa política deve passar por uma reforma, não adianta só sair fechando leitos", opina França.
A pesquisa não mostrou os dados regionalizados, mas, segundo o presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, Osmar Ratzke, o Paraná não foge à realidade do país. "Temos falta de médicos psiquiatras; no interior e na região metropolitana, há alguns Caps funcionando sem eles", diz. De acordo com a Sociedade Paranaense de Psiquiatria, o Paraná possui hoje cerca de 300 psiquiatras.



