
Ponta Grossa - Depois de ficarem 37 anos fora do currículo escolar, as disciplinas de Sociologia e Filosofia voltam a ser obrigatórias nas escolas públicas. Uma mudança na Lei de Diretrizes e Bases da Educação determina que as matérias sejam dadas em todas as séries do ensino médio. Até agora, a oferta era facultativa. A aplicação da lei deve ocorrer a partir do próximo ano letivo, mas a falta de professores formados na área para dar as aulas será um problema.
Todo o ano saem das faculdades brasileiras 2.884 novos professores de Filosofia e 3.018 de Sociologia. Como a quantidade é insuficiente para atender as 24.131 escolas de ensino médio do país, a solução é apelar para professores formados em outras áreas, o que compromete a formação do aluno.
Segundo levantamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), responsável pela formação docente, o Brasil tem 31.118 profissionais dando aulas de Filosofia e 20.339 de Sociologia. O número está longe do ideal. Segundo a Capes, seriam necessários 107.680 docentes em cada uma dessas disciplinas para atender à nova demanda. Além de ser baixo, o efetivo é formado principalmente por professores não licenciados nas áreas. Nas salas de aula de Sociologia, 88% dos docentes não se formaram na área. Na Filosofia, a porcentagem é de 77%.]O Paraná está numa situação um pouco mais confortável que a média brasileira, mas nem por isso menos preocupante. Segundo a chefe do Departamento de Educação Básica da Secretaria Estadual de Educação, Mary Lane Hutner, dos 1.591 professores de Sociologia e 1.494 de Filosofia do Paraná, 30% não são concursados e, portanto, em tese, não têm formação específica nas áreas. Para conduzir as aulas, os docentes contam com o apoio dos livros didáticos das disciplinas. A professora de Filosofia do 3º ano do ensino médio do Colégio Estadual Nossa Senhora das Graças, em Ponta Grossa, Elimar Foltran, é formada em Pedagogia. "Sigo o livro, mas também trago outros materiais para os alunos, como filmes e reportagens", comenta.
A carência só não é maior no Paraná porque desde 2003 estão sendo contratados docentes dessas duas áreas. Até o ano passado, a oferta das disciplinas de Filosofia e Sociologia era uma orientação do Conselho Nacional de Educação. Apesar de as matérias não serem dadas nos três anos do ensino médio, elas atingem pelo menos 80% das turmas paranaenses.
O coordenador da disciplina de Filosofia do Núcleo Regional de Educação de Ponta Grossa, Carlos Ricardo Grokorriski, afirma que em toda a região há apenas dois professores licenciados na área. A falta de docentes habilitados é suprida por professores de Pedagogia. "Eles recebem a orientação suficiente para as aulas", comenta.
Profissionais formados em outras áreas das Ciências Humanas, como História e Geografia, também assumem as aulas das novas disciplinas obrigatórias. O assessor educacional da APP-Sindicato no Paraná, Edmilson Feliciano Leite, defende que somente professores licenciados assumam as aulas, sob o risco do aluno do ensino médio ter uma formação inadequada nas novas disciplinas obrigatórias. "É preciso haver uma política pública", sugere.
Alheios à discussão da formação dos professores, os alunos consideram as disciplinas necessárias. "As aulas são muito importantes porque ajudam a gente a pensar, dá para melhorar até em outras matérias", comenta a estudante de 17 anos, Paola Lima dos Santos, que está estudando Filosofia e fez Sociologia no ano passado.



