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Saúde

Sequelas da violência

Pesquisa da FioCruz mostra que pacientes que passaram por situações traumáticas apresentam queixas difusas de doenças variadas

“Dá uma vontade de sair correndo. Largar tudo.”Maria Cristina, mãe de Bruno, morto por policiais | Albari Rosa/Gazeta do Povo
“Dá uma vontade de sair correndo. Largar tudo.”Maria Cristina, mãe de Bruno, morto por policiais (Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo)

Maria Cristina Andrade Ganâncio, 42 anos, sente dores agudas no peito, "pontadas em que o coração parece querer pular para fora". Ela também não dorme direito. Acorda com frequência no meio na madrugada e chora. Durante o dia, no trabalho, tem ataques de pânico. "Dá uma vontade de sair correndo. Largar tudo", diz.

Essa série de problemas teve início há cinco meses, quando o filho de Maria Cristina, Bruno César Augusto, 24 anos, foi morto em casa, por policiais da Rotam (Rondas Ostensivas Tático Móvel), acusado de ter assaltado uma quitanda. A morte do menino, considerada injusta pela mãe, tem minado dia a dia a saúde da Maria Cristina, que ainda aguarda o desenrolar de um inquérito aberto na delegacia de São José dos Pinhais para saber se houve um erro por parte dos policiais militares.

Enredos como o de Maria Cristina são comuns nas grandes cidades brasileiras. A violência urbana não se limita a tirar vidas de forma instantânea e pontual. Ela vai, aos poucos, corroendo quem se insere nessa lógica do medo. "Os efeitos da violência atingem diretamente vítimas e se potencializam em várias outras vítimas que interiorizam esses efeitos", explica o psiquiatra Marco Aurélio Soares Jorge, autor da tese de doutorado A produção de sintomas como silenciamento da violência, apresentada à Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp-Fiocruz).

Soares Jorge baseou seu trabalho no atendimento realizado a um grupo de mulheres em um centro de saúde de uma comunidade carente do Rio de Janeiro. O psiquiatra passou a atender pacientes que tinham várias queixas de saúde, sem diagnóstico claro. "Eram pacientes que chegavam com diarréia, tonturas, depressão leve, insônia e palpitações. Todas essas pacientes tinham ligações com situações de violência", diz o médico.

Os casos relatados pelas pacientes guardavam relação justamente com situações de violência policial. "Era uma das principais reclamações dessas pessoas. A polícia não era vista como proteção e sim como ameaça. Essas pessoas sentiam-se tratadas como marginais, sentiam-se tratadas com desprezo pela polícia. Esse sentimento acumulado por muito tempo cobrava seu preço."

O grupo atendido pelo psiquiatra também relatou casos de violência praticada pelos traficantes e de violência doméstica, geralmente praticada pelo marido ou companheiro. "É o retrato de uma comunidade de baixo poder aquisitivo. Se a pesquisa fosse em um bairro de classe média, acredito que os sintomas seriam os mesmos, mas as causas poderiam ser outras, como assaltos e sequestros relâmpagos."

Foi o que ocorreu com a empresária Gabriela Gimenez Gonçalves, 31 anos. Em 1999, quando ainda era estudante de Psicologia, Gabriela foi rendida por dois assaltantes enquanto esperava um amigo pegar um agasalho em casa, em Curitiba. Gabriela permaneceu sob a mira de um revólver no banco de trás e depois foi colocada no porta-malas do carro. Rodou quase oito horas com os bandidos que pararam para encher o tanque e fazer um saque com o cartão dela. Os assaltantes soltaram a moça por volta das 4 horas da manhã na Avenida Juscelino Kubitschek. "Manti a serenidade durante todo o tempo. No porta-malas ficava observando pela aresta tentando identificar onde estava. Respondia o que eles perguntavam, sem demonstrar medo."

O trauma, porém, começou na mesma noite, quando a então estudante já estava em casa. "Não conseguia dormir. Ficava vendo a arma apontada para mim", diz. Semanas depois, Gabriela resolveu viajar para a praia com uma amiga, na tentativa de relaxar e esquecer o ocorrido. "Lá tive uma ataque de bronquite que nunca tinha tido. Senti que tudo que eu tinha segurado no peito estava agora travando todo meu sistema respiratório."

Com terapia e atendimento médico, Gabriela conseguiu voltar a dormir e superou a bronquite. Mas ainda hoje, não tem a mesma postura de antes do crime. "Não paro o carro em qualquer lugar. Ou entro em uma garagem ou fico dando voltas na quadra se estou esperando alguém. Também não entro de noite em bairros que eu não conheça", diz.

O próximo objetivo de Soares Jorge é justamente lidar com esses traumas e não apenas com os sintomas. "Uma pessoa vive uma situação de tiroteio, passa mal e é levada ao médico. Lá eles verificam que a pressão está alta e receitam um medicamento. Todas as questões que desencadearam essa hipertensão não são tratadas. Isso tem de mudar."

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