
O jantar sempre aparece misteriosamente em cima da mesa, como em um passe de mágica. A roupa também se lava sozinha, as contas de água e de luz aparecem pagas, os pratos vão direto para a lavadora, o lençol da cama surge arrumado de uma hora para a outra. Por esses e outros truques, o advogado Leonardo dos Santos Marquesine, 33 anos, nunca saiu da casa dos pais. Nem pretende. "É meio Harry Potter, sabe? Eu chego em casa e está tudo bonitinho no lugar", brinca ele, sem namorada fixa há dois anos. "Não tenho vergonha de morar com os pais e depender deles. Tenho muita coisa pra conquistar e resolver antes de casar, morar sozinho, namorar firme."
Se no passado Marquesine teria de rebolar para explicar aos parentes por que vivia só, sem namorada e aparentemente sem rumo, hoje a sua história parece até bobinha, corriqueira. Solteirões convictos como ele, que comemoram sem vergonha o Dia do Solteiro no próximo dia 15, formam uma das parcelas da população que mais inflam no país é um universo sem padrões pré-definidos, que vai desde profissionais no começo de carreira, que querem fazer uma poupança antes de sair debaixo da asa dos pais, até o recém-divorciado em busca do tempo perdido.
De acordo com o censo 2000 do IBGE, há quase 53 milhões de pessoas com mais de 18 anos solteiras, equivalente a 30% da população, um número 70% maior do que na década de 90. Em algumas cidades, esse índice é ainda maior.
Segundo uma pesquisa inédita do Instituto Ipsos/Marplan/EGM, realizada em nove cidades durante o período de abril de 2007 a junho deste ano, a Salvador do axé e das micaretas é a capital brasileira dos solteiros 45% da população acima dos 18 anos está sozinha, ainda em busca da sua tampa da panela.
Para os homens de lá, não deixa de ser uma ótima notícia, já que 53% da classe solteira soteropolitana é formada por mulheres. "Por um lado é bom porque sempre tenho uma batelada de amigos solteiros, dá para sair e beber sem cobranças, ninguém tem vergonha atualmente de se afirmar solteiro. Mas também é difícil arrumar alguém para namorar porque todo mundo só quer farrear", diz a professora de inglês Silvana Marques, 35 anos, criadora da comunidade Solteira em Salvador no Orkut.
No segundo lugar desse ranking está Brasília, com 41% de solteiros (51% homens e 49% mulheres), seguida por Belo Horizonte, com 40% (52% homens e 48% mulheres), e Fortaleza, com 38% (49% homens e 51% mulheres).
"A maioria dos meus amigos é solteira, então vejo esse estado como uma coisa natural, sem aquela pressão de quando vou casar, meu Deus", diz o advogado Rubens Lancaster de Torres, 32 anos, que vive em São Paulo. Há cinco anos, ele mora sozinho em um apartamento em Taboão da Serra, perto do escritório em que trabalha. "Moro sozinho, mas não me sinto sozinho, saio muito para me divertir. Vou na Vila Madalena, no Itaim, na Barra Funda, que agora está bombando de novidades. Não sinto falta de ter uma companhia constante."



