
Desde o início da urbanização, a urina sempre teve um papel secundário em relação às fezes por ser considerada menos poluidora. Porém, alguns países da União Europeia começaram a estudar formas de tratar a urina antes de lançá-la ao meio natural, já que os resíduos de medicamentos, por exemplo, em grandes quantidades na água podem causar alterações no sistema endócrino de animais, causando mudança na produção de hormônios. O assunto foi abordado pelo coordenador de programas e superintendente técnico da Agência das Águas Sena-Normandia, Lacques Lesavre. Ele esteve em Curitiba na semana passada para ministrar aulas no curso de pós-graduação de Gestão Técnica do Meio Urbano (GTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Em entrevista à Gazeta do Povo, ele abordou o tema dos "agentes endócrinos" de poluição e falou da experiência francesa com a gestão por bacias dos recursos hidrícos. Desde a década de 60, todas as atividades e políticas relacionadas ao longo de um rio são discutidas por um único grupo, uma Agência de Água. O Brasil se inspirou no modelo francês para criar a legislação sobre o tema, de 1997, mas que ainda engatinha na implementação.
Lesavre contou ainda como o controle de poluição foi determinante para repovoar com peixes o Rio Sena, que nasce dentro do território francês, corta a capital Paris e deságua no Atlântico. Confira os principais trechos da entrevista, realizada com a tradução de Laura Solange Pereira.
A França faz gestão por bacias há 45 anos. Quais as principais vantagens dessa política?
A bacia hidrográfica constitui uma realidade física, que torna o conjunto de atividades nessa bacia solidárias. A agência da água traz um complemento fundamental, que é o princípio do "poluidor pagador". E o poluidor com vontade de despoluir é ajudado. No seu aspecto financeiro, complementa todo o conjunto de medidas jurídicas e de controle de polícia. A agência complementa ainda as atividades de outros organismos públicos. Esse modelo foi exportado para várias partes do mundo. Os tomadores de decisão são os representantes dos usuários das atividades ligadas ao território (indústrias, agricultores, população, políticos). Achamos que no preço da água havia uma maneira de implementar uma ação coordenada na bacia hidrográfica. Para a recuperação do meio natural, é necessária uma análise da totalidade das pressões poluentes, como a agropecuária, a industrial e a residencial. E, a partir desta constatação, o que deve ser feito para reduzir as desordens constatadas. É necessário tratar os efluentes? É necessário reduzir o uso de agrotóxicos? Todas essas questões são estudadas, analisadas e os tomadores de decisão são aqueles que vão pagar.
Em 1991, a União Europeia editou uma diretiva para o tratamento adequado das águas residuais urbanas. Em 2000 foram estabelecidas metas progressivas de qualidade da água para serem cumpridas até 2015, 2021 e 2027. Como está o cumprimento dessas determinações dentro do bloco? O que a França já conseguiu cumprir?
Na França a diretiva de 91 chegou atrasada na sua aplicação. A Comissão Europeia constatou esse atraso e solicitou a aceleração da implentação definitiva dessa diretiva, caso contrário haveria penalização e multas. Na diretiva do ano 2000, estabeleceu-se uma metodologia para que se atinja o bom estado das águas. A diretiva fixou para o fim de 2009 um plano diretor de saneameto e gestão das águas, um programa de medições, um programa de controle da qualidade da água, constituindo a caixa de ferramentas que vai permitir que a gente tenha um bom estado das águas nesses prazos que foram estabelecidos. Vamos aplicar o programa de medições, cuja pertinência vai ser medida em 2015.
Quais bons exemplos já existem com a implementação dessa política de melhoria da qualidade das águas?
Nos anos 70 havia quatro tipos de peixes no Rio Sena. Hoje tem 25 ou mais. Recentemente, vimos que alguns salmões chegaram ao rio. O peixe é um grande indicador da qualidade da água, principalmente os peixes nobres. Ele é o elemento mais forte para mostrar alguma coisa, em vez de falar de miligramas de oxigênio. O peixe faz parte da qualidade fisicoquímica da água.
Isso se conseguiu com o controle de poluição?
Temos exemplos de que podemos fazer um acompanhamento do impacto das obras de despoluição de águas domésticas nas estações de tratamento de esgoto despejadas diretamente no meio natural. O meio natural recebia muito amoníaco e fósforo, que são poluentes típicos de uma atividade de lançamento de efluentes entrópicos. Pudemos constatar depois que tinha menos fósforo, menos amoníaco. Porém, também com a agricultura, com o uso de nitrato e pesticidas. Estamos diante de elementos em jogo, que estão no meio da poluição: como resolver a poluição difusa? Como limitar as substâncias perigosas? Como agir nas poluições de água pluvias? Como limitar as enchentes?
O que são os agentes endócrinos de poluição e como foram identificados?
Até hoje nos preocupamos com a poluição tradicional. Progressivamente, vamos nos interessar por substâncias que existem em quantidades muito pequenas, mas que têm efeitos a longo prazo e podem agir diretamente na saúde pública. Portanto, nessa gama de produtos temos várias denominações e substâncias prioritárias e perigosas, como os resíduos de medicamentos. Quer dizer, agentes químicos que progressivamente vão se acumulando e podem provocar disfunções do sistema endócrino humano e de outros animais vivos. Essas preocupações começaram a surgir há uns 15 anos e a constatação dos pesquisadores foi chegando pouco a pouco até atingir o grande público.
Quais casos dá para citar, como exemplo da ação desses agentes endócrinos?
A gente pode citar o caso dos anfíbios. Nos Estados Unidos, rãs e jacarés tiveram problemas de reprodução. Houve animais que se situam bem acima da cadeia alimentar, como o biguá, com ovos com a casca anormalmente fina e com filhotes deformados. Fala-se muito de problemas de mudança de sexo de peixes e, em alguns casos, peixes podem mudar naturalmente de sexo. É necessário ter muita prudência nas interpretações. Atualmente, estamos em uma fase de esclarecimento dos produtos poluentes e não podemos assustar a população. Precisamos ter cuidados e tentar ver a totalidade dos produtos que são lançados em quantidades muito pequenas e ver aqueles que, a longo prazo, podem ser prejudiciais à saúde humana.
Esse tipo de poluição vem diretamente da urina humana, como os resíduos de medicamentos que são liberados no esgoto e não têm nenhum tipo de tratamento. Como resolver isso?
O problema de poluição, do ponto de vista dos agentes domésticos, pode ser resolvido colocando tudo em uma canalização só ou resolvemos esse problema na fonte. Nos resíduos domésticos percebemos que a urina e as fezes contêm uma poluição relativamente grande num volume relativamente pequeno. Dos 150 litros de água servida que lançamos diretamente no esgoto, a urina representa apenas 1,5 litro por dia. Na urina, há 70% dos resíduos de medicamentos e uma parte de nitrogênio e fósforo, que podem ser usados como um adubo. Então surgiu a ideia, talvez um pouco utópica hoje, de dizer: será que podemos estocar urina, já que o volume é muito pequeno? Aí essa urina não pode ser misturada com outras águas servidas. Será que podemos recuperar o nitrogênio e fósforo para ter um produto que contém dois dos três principais formadores dos fertilizantes? Podemos tratar, exclusivamente, os resíduos de medicamentos que existem na urina? A ideia é fazer uma espécie de "coleta seletiva" da urina. Podemos ter um tratamento físicoquímico da urina para destruir os resíduos de medicamentos, ao invés de lançar isso no meio natural. Estão sendo feitas pesquisas na Suíça para produzir adubo, mudando totalmente o tratamento de efluentes, o que implica, por parte dos indivíduos, uma mudança de comportamento. Uma mudança de uso do vaso sanitário. O banheiro seco é uma coisa que estamos vendo cada vez mais. As pessoas não querem colocar no circuito coletivo produtos que eles acham que são interessantes em relação ao meio ambiente. Se faz, então, uma compostagem com os excrementos.



