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Flip 2013

Toda a política de Graciliano Ramos

Na abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, Milton Hatoum diz que o autor de Vidas Secas foi político, mas nunca panfletário

O escritor Milton Hatoum falou que Graciliano Ramos tinha uma “postura ética irrepreensível.” | Danilo Verpa/Folhapress
O escritor Milton Hatoum falou que Graciliano Ramos tinha uma “postura ética irrepreensível.” (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Graciliano Ramos, como poucos autores na história da literatura brasileira, soube emprestar à sua obra complexidade social, política e psicológica. "Apesar de ter sido um autor engajado, muito preocupado com as mazelas do país, jamais fez uso panfletário de seus escritos." A afirmação foi feita pelo escritor amazonense Milton Hatoum, na conferência de abertura da 11.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na noite da última quarta-feira.

Para Hatoum, Graciliano era dono de uma "postura ética irrepreensível", traço que permeia toda a sua obra. A fala do premiado autor dos romances Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos foi precedida de uma apresentação do curador da Flip Miguel Conde, na qual ele ressaltou que o teor político da obra de Graciliano é particularmente pertinente em um momento como o atual, no qual a democracia, direitos sociais e liberdade de expressão estão na ordem do dia no país. "Graciliano devolveria com olhos meio desconfiados o olhar de admiração que lançamos sobre ele."

Essa confluência, do período que o Brasil atravessa e desse aspecto da obra de Graciliano, acabou sendo um dos pontos-chave na fala de Hatoum. "Graciliano teve plena consciência das contradições do país e viu nelas um impasse. E uma das causas, para ele, é a ausência ou inconsistência da educação", disse, referindo-se ao uso da palavra escrita pelo autor alagoano como uma "arma de explicação sutil".

Prosa enxuta

O amazonense abriu sua fala citando relatórios escritos por Graciliano quando foi prefeito do município de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas, no fim dos anos 20 e início da década de 30. Nesses textos, que deveriam ser burocráticos, Graciliano faz uso de sua prosa enxuta, porém rica em detalhes e contundente para discutir aspectos de um Brasil do passado que encontra fortes ecos na realidade atual. As mazelas persistem. Vale lembrar que o alagoano também foi diretor da Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente ao de um atual secretário da Educação.

Hatoum citou e discutiu, ao longo de uma hora e meia, trechos de obras de Graciliano, como São Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas Secas (1938) e o póstumo Memórias do Cárcere (1953), com comentários seus – Hatoum é doutor em Literatura – e de críticos como Antonio Candido e Otto Maria Carpeaux.

Hatoum não se limitou, entretanto, a falar apenas de aspectos políticos e ideológicos da obra de Graciliano, um criador avesso à mística em torno da figura do escritor, leitor ávido de Tolstói, Dostoiévski, Flaubert, Machado de Assis e comparado pelo amazonense ao modernismo e à complexidade psicológica do norte-americano William Faulkner.

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