
O trânsito sempre foi considerado espaço predominantemente masculino. E, de fato, ainda é. Os números, contudo, começam a transformar essa afirmação. Nunca, no Paraná, houve tantas mulheres dirigindo pelas ruas. De um total de 3,9 milhões de motoristas no estado, perto de 1,1 milhão cerca de 29% são de condutoras. Quando se trata apenas de carros de passeio (habilitação tipo B), a proporção é praticamente a mesma em relação ao número de homens no volante. Do total de motoristas nesta categoria, 48% são mulheres, conforme dados de abril deste ano do Detran-PR.
O número de mulheres com habilitação para motocicletas, caminhões ou ônibus nem sequer se aproxima dos carros de passeio. A habilitação B é a praia feminina no trânsito. Elas prevalecem na faixa de idade de 25 a 34 anos, com 52% de condutores, de 35 a 44 anos (54%) e 45 a 54 anos (53%). Há inferioridade numérica no limite etário de 18 a 24 anos (45%) e, sobretudo, na faixa superior aos 55 anos, com 37% (veja infográfico).
Um dos fatores que colabora para o aumento de mulheres no volante é o crescimento da população feminina no estado. De acordo com o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano 2000, havia aproximadamente 9,5 milhões de habitantes no Paraná: 50,5% de mulheres. A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad), de 2007, indica porcentual ainda menor de homens. Dos 10,5 milhões de habitantes contabilizados, 51,1% são mulheres.
Nas ruas, essa maioria feminina torna o trânsito mais seguro e menos agressivo. Em 2007, de acordo com o Detran-PR, 69.198 pessoas morreram em acidentes no estado. Do total, 58,9 mil ocorrências (85%) foram causadas por motoristas homens. No número de condutores mortos no local do acidente, a tendência se repete. Há quatro vezes mais óbitos masculinos do que femininos: 1.343 (82%) e 299.
Coordenadora de Educação para o Trânsito do Detran-PR, Maria Helena Gusso Mattos afirma que as mulheres têm atitudes menos perigosas no trânsito. "Elas tendem a ser menos agressivas. Deve-se a isso os índices de acidentes menores", explica. Conforme Maria Helena, existe uma tendência de que, com o passar do tempo, o sexo feminino adquira direção menos defensiva, semelhante a masculina. "Por enquanto, porém, constata-se que as mulheres tornam o trânsito menos violento", diz.
Para Maria Helena, a sensibilidade delas contribui para o tipo de direção adotada. E o instinto materno permite que maior preocupação com o bem-estar alheio nas ruas. "O trânsito é um espaço coletivo. Existe necessidade de dar espaço a outros motoristas, e as mulheres são mais flexíveis, menos individualistas", opina. A coordenadora também defende que as mulheres têm aptidão natural para se focar em duas ações ao mesmo tempo, faculdade considerada essencial para quem está ao volante.
No alto de seus 86 anos, a funcionária pública aposentada Liamir Santos Hauer, com 61 anos de habilitação, encara o trânsito de Curitiba diariamente e diz estar atenta a todos os detalhes, realizando várias ações simultaneamente. "Se você não for esperta no volante hoje em dia, tromba em cada esquina", relata. "Eu vejo o que está à frente e nos retrovisores direito e esquerdo ao mesmo tempo. Sou muito agilizada." Ao contrário de boa parte das mulheres de sua idade, Liamir optou pela liberdade de dirigir, enfrentando preconceito por muito tempo (veja texto ao lado).
Atualmente, Liamir se transformou em uma espécie de faz-tudo da família, vagando para lá e para cá com o seu carro. "Na época do Imposto de Renda, eu fico quase louca. Preciso pegar recibo de todo mundo em banco, em escola de neto", conta. A aposentada, às vezes, até excede o limite de velocidade. "Se não dirigisse, não daria conta do que me pedem às vezes. De vez em quando, tenho tanta coisa para fazer que preciso correr", diz.
Mais de meio século mais jovem, Carla Bueno Comarella, estudante de Jornalismo e Relações Internacionais, espera angustiada o momento em que estiver com a carteira de motorista em mãos. "Como faço duas faculdades ao mesmo tempo, eu preciso da mobilidade que o carro oferece", afirma. Um veículo na garagem apenas aguarda a habilitação para ser usado. Enquanto Liamir precisou desbravar o preconceito e o machismo, Carla desfruta os benefícios da liberdade conquistada pelas gerações anteriores. E, de certa forma, a estudante é o protótipo da mulher atual, estudando, ingressando no mercado de trabalho e dividindo o trânsito.




