
Colchas bordadas, toalhinhas de crochê nas mesinhas e uma estante cheia de porta-retratos. O quarto de Margaretha Burkle, de 81 anos, guarda parte do aconchego do apartamento que dividiu com a irmã Denise por 20 anos. Há três meses, depois da morte dela, Margaretha mora no Lar de Idosos Adelaide, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. A decisão de levá-la para uma casa de repouso foi dos sobrinhos, diante da necessidade de garantir a melhor assistência à tia, idosa e portadora de necessidades especiais. "Ainda estou me adaptando, mas tenho muita saudade da minha irmã", conta a mulher, emocionada pela lembrança.
Sem cuidadores familiares disponíveis e com autonomia comprometida, Margaretha tem o perfil do paciente internado em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), antigamente conhecidos como asilos. E o que antes parecia chocante e desumano ganhou novos conceitos nos últimos tempos. "A estrutura familiar mudou. Antes a mulher era a responsável por cuidar dos velhos e das crianças. Hoje ela trabalha fora e há pouca disponibilidade e até condições financeiras e emocionais de cuidar de um idoso dependente em casa", diz a psicóloga Katia Ricci, presidente da Vila São Vicente de Paula, ILPI de Atibaia, no interior de São Paulo, fundada em 1924. De antigo depósito de velhos a modelo de atendimento à terceira idade carente, a Vila é um exemplo do que a legislação e a vigilância da sociedade fizeram nos modelos de moradia coletiva para idosos.
Aos poucos, os antigos asilos têm sido substituídos por casas de repouso, clínicas geriátricas e condomínios residenciais para moradores da terceira idade, e não somente os doentes ou dependentes. A legislação, inclusive, se encarrega de determinar regras como recursos humanos, equipamentos e estrutura física adequadas a cada nível de autonomia dos hóspedes. "O internamento não é somente uma opção negativa de atendimento. É preciso levar em conta a capacidade da família em proporcionar ao idoso a melhor assistência. O ideal é que seja em ambiente doméstico. Mas, se não for possível, a instituição vai suprir as necessidades essenciais para a sobrevivência do idoso", explica o médico geriatra Mauro Piovezan, professor da Universidade Federal do Paraná.
Alimentação balanceada, higiene pessoal, serviços de lavanderia e enfermagem, terapias ocupacionais e a convivência com pessoas da mesma idade são algumas das vantagens listadas pelos especialistas quando o ILPI é a recomendação terapêutica. Até mesmo os tratamentos médicos têm maior adesão quando o idoso recebe assistência contínua, já que a administração dos medicamentos faz parte da rotina da casa de repouso. Porém, em muitos casos, o preconceito e a resistência da família em optar pela clínica são maiores do que os benefícios que o interno pode ter. "A família precisa se preparar para a decisão e aceitar que o internamento é o melhor para o paciente. O que parece abandono e descuido, na verdade pode ser a única forma de garantir ao idoso atividades que preencham seu dia, um tratamento clínico com o devido acompanhamento, ao invés de estar confinado numa cama, diante da televisão, sozinho o dia todo, enquanto todos os familiares trabalham", diz o médico.
Internar os pais ou os avôs, no entanto, não significa confiná-los ao isolamento. Os novos modelos de IPLI devem, por lei, preservar os vínculos familiares, para dar o devido suporte emocional e afetivo de que o idoso precisa para manter-se saudável. O Estatuto do Idoso determina que as entidades de atendimento proporcionem e exijam o acompanhamento familiar de seus internos, promovendo atividades de convivência e permitindo visitas constantes. "O abandono é fator de quebra de contrato da prestação de serviço", explica Vaslanv Oliveira, administrador do Lar Adelaide.
Tendência
Ainda que a ideia de internar um parente numa ILPI pareça agressiva, a moradia coletiva tende a ser um modelo mais corriqueiro de atendimento a idosos no futuro. O ritmo de vida moderno e a redução gradual de cuidadores naturais dentro das famílias exigem um novo conceito de assistência à terceira idade. "A longevidade é um susto para o estilo de vida contemporâneo. Todos família, autoridades e profissionais parecem estar desnorteados em como tratar o idoso. Ele próprio ainda busca seu papel social, antes tão valorizado pela experiência. Estamos aprendendo a lidar com esse indivíduo cada vez mais velho. Aos poucos vamos descobrindo novos modelos, que respeitem a dignidade do envelhecimento", observa Katia.



