
Passado um mês da chacina que deixou oito mortos, entre eles um bebê de apenas cinco meses, as ruas voltaram a tomar vida no Jardim União, no Uberaba. Os moradores retomaram as suas atividades e a Rua Helena Carcereri Piekarski, principal rota dos atiradores, não se parece mais com o palco de uma tragédia a rua, que passou a ficar deserta durante o dia e a noite, voltou a ter movimento. A tranquilidade de moradores é garantida, em parte, pela presença da Polícia Militar, que permanece no local. Os moradores, porém, dizem não esquecer os momentos de terror e afirmam que o medo ainda assombra a comunidade.
Quem vai ao Jardim União hoje nem imagina que o local foi palco de um massacre que chocou Curitiba, há apenas um mês. Comércio a todo vapor, vizinhos conversando em grupos nas esquinas, crianças indo e voltando das escolas tranquilas. De tempo em tempo, a cavalaria da Polícia Militar ou uma viatura passa para lembrar àquela comunidade que alguém está se preocupando com a segurança do local.
"As imagens ainda estão na nossa cabeça. Nunca vamos esquecer. Mas agora a vila está tranquila. Tudo voltou ao normal", afirma um dos moradores, que, mesmo dizendo se sentir seguro, pede para não ser identificado. O receio tem explicação. De acordo com os moradores ouvidos pela reportagem, aos poucos o efetivo da polícia está diminuindo, e eles temem o momento em que a PM deixar o local. Segundo eles, a vila ficará entregue aos bandidos.
O comandante do Policiamento da Capital, coronel Jorge Costa Filho, confirma que houve redução do efetivo, mas afirma que isso não fez com que a segurança fosse diminuída no local.
Segundo Costa Filho, não há previsão para que a PM deixe o Uberaba. "O policiamento será mantido. Quando a situação se estabilizar, o policiamento será readequado. Mas a polícia nunca vai sair de lá", explicou.
De acordo com o delegado Hamilton da Paz, titular da Delegacia de Homicídios, os sete envolvidos na chacina foram identificados pela polícia e foram presos. Outras quatro pessoas foram indiciadas como cúmplices. Os carros usados pela quadrilha também foram localizados. Para finalizar o inquérito, a polícia aguarda apenas os resultados de exames periciais.
Mesmo com o inquérito estando praticamente fechado, porém, as armas usadas no crime (uma pistola .40, uma pistola calibre 380 e uma carabina .30) não foram encontradas até agora e nem há indícios de onde possam estar. Na época da chacina, levantou-se a hipótese de que as armas de calibre restrito pudessem ter sido emprestadas por outro grupo criminoso, já que o bando preso não teria tal poderio de fogo. "Em toda a minha carreira, eu nunca atendi uma morte que foi feita por disparo de carabina .30. É um arma de difícil acesso", diz Paz.
Segundo Paz, a hipótese do envolvimento de uma quadrilha de fora foi descartada. E mais: não há duvidas de que Wagner Jayson Pascoal, o "Nardão", 23 anos, um dos presos, é o mandante e comandante da operação a chacina teria sido feita para vingar a morte de um membro da gangue de Nardão, apontado como o chefe do tráfico no vizinho Jardim Icaraí.
Segundo o delegado, a polícia trabalha com três hipóteses sobre a origem das armas: contrabando, manufatura ou empréstimo por conhecidos do bando. Paz descarta a hipótese de aluguel de armas entre facções criminosas. "Aqui não é como no Rio de Janeiro. É outra realidade", diz. De acordo com o delegado, os presos afirmaram que as armas ficaram nos carros. A polícia, porém, não encontrou nada nos automóveis.
O que as investigações policiais não descartam também é a possibilidade de que existam outros envolvidos na chacina. "Nada impede que se, no decurso do tempo, aparecerem outros envolvidos, eles também sejam processados", afirma o delegado.
O fato de o crime não estar 100% solucionado funciona como um fantasma assombrando os moradores da região, que temem que outros criminosos possam ainda estar na área. A diminuição do policiamento ostensivo também preocupa. "Tem uns cachorros (bandidos) que estão voltando a aparecer nos bares à noite. Eles tinham sumido e agora estão de volta", afirma uma moradora.



