
Quando se comemorou o centenário da emancipação política do Paraná, em 1953, dava para se ter uma idéia de como Curitiba ainda era essencialmente horizontal: no alto do Hospital de Clínicas foi colocada um placa com o escrito 100 anos, a qual podia ser vista, por exemplo, da Praça Garibaldi, no atual Largo da Ordem. Os poucos prédios que existiam, ainda contados nos dedos, também não atrapalhavam a vista de quem tinha terraço em casa, feito apenas para ver a Serra do Mar ao longe. Isto aconteceu até as décadas de 60 e 70, porque depois houve o chamado "boom" construtivo e tudo o que podia ser visto ficou escondido atrás dos paredões modernos.
Infelizmente não há registros sobre a ordem cronológica dos prédios que foram construídos para mudar a paisagem urbana da capital paranaense. Sabe-se apenas que o primeiro arranha-céu, inaugurado em 1927, foi o Edifício Moreira Garcez, que causou um certo "frisson" aos antigos moradores. Na época, havia quem diariamente fosse visitar as obras do edifício para ver uma Curitiba em desenvolvimento. Na década de 30 não havia déficit habitacional a cidade tinha cerca de 79 mil habitantes. Os prédios, entretanto, começaram a surgir mesmo assim, como um símbolo do progresso. O desenvolvimento urbanístico e moderno se deu lentamente, por isso os primeiros edifícios marcaram a história de Curitiba.
O Garcez era para ser um hotel de luxo, mas virou um prédio empresarial, que abrigava salas comerciais. Na década de 30, foi sede do Consulado da Alemanha, do Cassino Estância das Mercês, do Palácio das Diversões Skating Golf Girls e dos bailes do Bloco Please. Os 10 mil metros de área construída chamavam a atenção de quem passava pela Rua XV de Novembro, esquina com a Voluntários da Pátria. O projeto foi idealizado pelo ex-prefeito de Curitiba João Moreira Garcez, mas a construção foi feita por um empreiteira do Rio de Janeiro. O prédio ficou conhecido por ser administrado pelo grupo Hermes Macedo e por ter sido o Shopping Center Garcez.
Durante uma década, o Garcez foi o único espigão da capital, até a construção do primeiro edifício residencial da cidade, o Marumby, feito durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, na frente da Praça Santos Andrade. Ele trouxe um estilo de viver moderno para a população que até então morava em casas e criava galinhas no jardim. As "casas de apartamento", como inicialmente foram chamadas, acabaram virando um problema, pois a modernização das habitações entrou em choque com o estilo de vida daquela população. O hábito de velar os mortos da família em casa, por exemplo, teve de ser abolido. O Edifício Marumby traz outra curiosidade: em sua planta constava que era um prédio que servia de abrigo antibombas aéreas. O lugar, atualmente, é usado como depósito e garagem.
Foi somente na década de 50 que outros prédios comerciais começaram a ser construídos. No terreno onde ficava a antiga sede do Clube Curitibano, na Rua XV de Novembro, esquina com Barão do Rio Branco, ergueu-se o prédio que, na época, foi considerado um dos mais altos da cidade. De 1950 até 1968, ele foi usado como sede do clube. "Costuma-se dizer que hoje em dia é o único edifício do centro que tem um grande espaço para dança, um salão que poderia ser usado como centro de exposição", explica o diretor de tecnologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenador do projeto acadêmico de restauro do prédio, Mauro Lacerda Santos Filho. O edifício tem o nome de J. Malucelli porque foi comprado por este grupo empresarial em um leilão em 2005. Recentemente foi reformado para abrigar alguns setores da prefeitura, como a Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego. A construção deste prédio tem valor histórico tão importante para Curitiba como a Biblioteca Pública, os edifícios Dom Pedro I e II da UFPR e o Palácio Iguaçu todos reproduzem a arquitetura da década de 50, que teve forte influência modernista, com traços retos e geométricos, a chamada arquitetura limpa.
Outro exemplo de prédio construído antigamente, com perfil de moradia, mesmo que provisória, é o antigo Hotel Eduardo VII, na Praça Tiradentes esquina com Marechal Floriano. Por muitos anos, desde a sua inauguração, em 1953, como a construção mais alta da cidade, foi um dos símbolos da modernidade na capital. Ainda na Praça Tiradentes, está o prédio que teve grande importância econômica para o comércio paranaense, porque foi sede da primeira loja de departamentos do estado, da extinta rede Prosdócimo. Ele fica localizado na Praça Tiradentes, esquina com a Rua do Rosário.
Lançado recentemente, o livro Palácio Iguaçu: Coragem de Realizar de Bento Munhoz da Rocha Netto, de autoria do historiador Jair Elias dos Santos Júnior, fala dos bastidores de um dos prédios mais modernos para a época em que foi inaugurado, em 1954. O historiador fugiu dos clichês de que o Palácio fez parte do projeto do Centro Cívico, do Plano Agache. Ele lembra que o conjunto da obra, por exemplo, nunca foi terminado. "As obras da residência oficial do governador, que ficavam aos fundos do Palácio, foram condenadas em 1967 e, logo em seguida, derrubadas. Isto porque, quando Munhoz da Rocha deixa o governo e a oposição assume o poder, as obras ficam abandonadas. Por isso se diz que o Palácio nunca foi completamente construído", explica. Jair lembra ainda das gafes cometidas durante a inauguração do edifício: dona Flora, mulher de Bento Munhoz, para a noite de inauguração, encomendou duas colunas de aço que teriam copos de água com hortênsias. A primeira-dama recomendava às pessoas que participavam dos preparativos para cortar as flores apenas alguns minutos antes da chegada dos convidados. As 3 mil pessoas chegaram ao Palácio, assistiram às solenidades e, quando trocaram de salão, enxergaram os copos de água dispostos nas duas colunas, mas sem as hortênsias. Como não sabiam que se tratava de uma decoração, começaram a beber da água. Detalhe: a água usada nos copos era da limpeza, considerada suja e não potável. Outra gafe: os convites da inauguração foram escritos com o nome do convidado e esposa. O problema é que a pessoa que escreveu esqueceu de tirar a palavra esposa do convite do arcebispo de Curitiba.
Durante a construção do Palácio, os opositores de Bento Munhoz chegaram a considerar a obra como "faraônica", porque o governador estava deixando de atender a outras necessidades do Paraná. "Os cafeicultores o criticavam porque queriam que o dinheiro investido lá fosse destinado ao Norte do estado, para a construção de estradas e de infra-estrutura", afirma o historiador. Recentemente, o Palácio virou alvo de críticas novamente, porque alguns arquitetos acreditam que a reforma vai desconfigurar a arquitetura original do imóvel.
Outros dois prédios cinqüentenários, os edifícios Dom Pedro I e II, da Universidade Federal do Paraná, que compõem o complexo da Reitoria, também receberam personalidades e foram palcos de eventos importantes para Curitiba. É neste complexo que estão o Teatro da Reitoria e a Capela Nossa Senhora do Carmo. Eles foram inaugurados sete anos após a federalização da universidade, que aconteceu em 1951. Os alunos que freqüentavam os espaços eram da mais alta classe social: afinal, a gratuidade não significou imediatamente o acesso de todos, até porque muitos cursos exigiam dedicação exclusiva, o que não permitia aos estudantes estudar e trabalhar ao mesmo tempo.
Nota
O Paço Municipal, que fica na Praça Generoso Marques, não é considerado um edifício por causa de sua arquitetura, por isso não foi citado na matéria. A construção dele aconteceu na década de 10 e, por causa de sua semelhança com as antigas Casas de Câmara e Cadeia, o local foi tipificado como sendo uma residência. Outros aspectos que definem um imóvel como prédio são sua ocupação, verticalização e onde está construído.






