Desde dezembro de 2005, quando a Vigilância Sanitária de Curitiba pôs fim ao recolhimento de cães das ruas da cidade, as universidades que oferecem cursos da área biológica tiveram de encontrar uma alternativa ao uso desses animais, principalmente nas aulas de prática cirúrgica. Pelo menos três delas, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e a Faculdade Evangélica optaram por substituir os cães por suínos.
A mudança gerou mais custos às universidades, uma vez que, com a interrupção do fornecimento dos cachorros, elas passaram a ter de comprar os porcos de criadouros especializados. Além disso, tornou-se necessária a construção de toda uma estrutura para o alojamento, manutenção e posteriormente preparo desses animais para a incineração.
É em razão de todos esses custos extras, somadas às questões éticas do uso de animais, que é cada vez mais forte a preocupação em tentar reduzir ao máximo esse tipo de prática. Na Faculdade Evangélica, por exemplo, uma das formas de diminuir o número de animais foi a utilização dos mesmos suínos para os cursos de Medicina e Medicina Veterinária. De acordo com a coordenadora do curso de Medicina, Izabel Meister Coelho, a cada mês são usados seis porcos e cada um tem um custo aproximado de R$ 180. Isso sem falar nos outros animais, como os ratos, que são usados em pesquisas de mestrado e doutorado e custam cerca de R$ 10 cada.
Na PUCPR e na UFPR, a preocupação é a mesma. Conforme o coordenador do Núcleo de Bioética da PUCPR, Marco Antônio Sanches, a universidade vem tentando diminuir ao máximo o uso de animais. Para isso são utilizados outros recursos como vídeos, programas de computador ou manipulação de cadáveres. Sanches ressalta também a necessidade do refinamento das técnicas com o intuito de minimizar o sofrimento dos bichos. Entretanto, ele não considera possível a total eliminação da prática. "O uso dos animais ainda é importante para trabalhar o senso de responsabilidade do aluno. Ele precisa sentir que tem uma vida em suas mãos. Esse sentimento será transferido para o ser humano quando eles estiverem atuando com pessoas", afirma. Izabel também considera que o sentimento é diferente quando se tem em mãos um ser vivo. "Não tem como o aluno sair da faculdade sem ter feito um procedimento cirúrgico e para isso ele precisa do animal", explica.
Já a coordenadora do Laboratório de Bem-Estar Animal da UFPR, Carla Forte Molento, acredita que os alunos de Veterinária podem ter esse tipo de aprendizado observando cirurgias reais ao lado de profissionais já formados. "Para treinamento de ensino não precisa do animal vivo, porque você já conhece o resultado", afirma.
É o que defende também o professor da disciplina de técnica cirúrgica da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP), Marco Gioso. Há sete anos, a faculdade só utiliza animais mortos. "Mas nós ainda temos a alternativa da carrocinha. Por dia são recolhidos quase 70 animais das ruas de São Paulo. Depois de sacrificados, eles são doados à universidade e usados por até seis meses", diz.
Gioso afirma que não sentiu nenhum prejuízo no rendimento dos alunos depois da opção pelos animais mortos. "Evita uma série de situações dramáticas. Cansei de presenciar cenas em que o animal urinava, gritava, mordia os alunos ou tentava fugir. Sem falar nos estudantes que passavam mal", lembra.
O professor acredita que a tendência é que no futuro os animais sejam totalmente substituídos por outras formas de ensino, como bonecos, por exemplo. "Se você juntar todos os custos que o bicho envolve, o boneco acaba saindo pela metade do preço e pode ser utilizado por vários anos", afirma. No entanto, ele reconhece que para pesquisas que envolvem o desenvolvimento de algum medicamento ou técnica nova, ainda é necessário o uso de seres vivos como forma de avaliar as respostas do organismo. "Acho que não dá para apagar e ignorar o passado. Se chegamos aonde estamos hoje é graças a muitos animais, mas é preciso buscar alternativas", resume.



