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Dependência química

Usuário de crack, filho ameaça a própria mãe

Adolescente de 13 anos queria dinheiro para comprar droga. Médicos criticam o governo pela demora em pôr em prática o Plano de Enfrentamento ao Crack

Garoto avançou contra a mãe com um facão: desestruturação familiar | Reprodução/RPCTV
Garoto avançou contra a mãe com um facão: desestruturação familiar (Foto: Reprodução/RPCTV)

Uma equipe de reportagem da RPCTV flagrou ontem uma cena chocante em Cascavel, no Oeste do Paraná. Armado com um facão, um menino de 13 anos ameaçava a mãe em plena rua. Visivelmente transtornado, o garoto exigia que ela lhe desse R$ 5 para comprar crack. Segundo a mãe, a diarista Marlene Batista, o adolescente é usuário de drogas. Ela se negou a dar o dinheiro e pediu para a equipe de reportagem chamar a polícia. Irritado, o menino passou a atirar pedras no cinegrafista e no carro da RPCTV. Em um determinado momento, o filho bateu o facão em uma grade e a arma caiu. A mãe juntou o artefato e ele saiu correndo de volta para casa. Quando a polícia chegou, o adolescente tentou escapar pela janela, mas foi contido pela PM. O menino foi encaminhado para a Dele­­gacia do Adolescente de Casca­vel. Marlene disse que já tentou interná-lo duas vezes em clínicas de tratamento, mas ele continua usando crack. "Ele quer droga, mas eu não dou", disse, ainda abalada com a desestruturação da própria família.

O caso demonstra como é difícil livrar os usuários de crack do vício. Estudo da Con­fe­deração Nacional dos Muni­cípios revela que apenas 14,78% dos municípios têm algum tipo de Centro de Atenção Psicossocial (Caps) – o mínimo de estrutura recomendado pelos especialistas para o tratamento de dependentes químicos – e somente 8,43% (ou 333 cidades) têm um programa próprio de combate ao crack instituído. No to­­tal dos pesquisados, 62,4% de­­clararam não receber apoio financeiro federal, estadual ou de qualquer outra instituição para as ações de combate.

Na última semana, o Con­selho Federal de Medicina (CFM) criticou a demora do governo para pôr em prática o Plano Integrado para Enfren­tamento do Crack e Outras Drogas, lançado pelo então presidente Lula, em maio de 2010. O primeiro vice-presidente do Conselho, Carlos Vital Corrêa Lima, afirmou também que os R$ 400 milhões previstos para as ações emergenciais do plano são insuficientes. "Sabemos que o que está posto (em termos de verbas) está muito aquém do necessário", afirmou.

O coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Roberto Tykanori, lembra que assumiu o cargo há dois meses, mas afirma que o álcool e as drogas passaram a ser uma preocupação do ministério já em 2003, no primeiro ano de Lula. Ele também discorda de que os R$ 400 milhões do plano sejam insuficientes, argumentando que a finalidade desse dinheiro é bancar ações extraordinárias, que ficam fora do orçamento dos ministérios envolvidos. "Temos a previsão de gastar R$ 1,8 bilhão na saúde mental neste ano. O crack faz parte disso", afirmou.

Durante um debate sobre o crack na Comissão de Assuntos Sociais, do Senado, em Brasília, o representante da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Emmanuel Fortes Silveira Cavalcanti, não poupou críticas a uma "falta de controle" do governo sobre as indústrias químicas que fabricam éter e acetona, insumos fundamentais para o refino da cocaína e, por consequência, do crack.

Cavalcanti defendeu a estruturação dos postos de saúde da rede pública e de tratamento dos dependentes químicos, com a participação de uma equipe multidisciplinar preparada para atender usuários de droga.

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