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Violência

Velhinhos e maltratados

Mudar a forma de abordagem ao idoso é uma das maneiras de reduzir a violência, que na maioria das vezes começa dentro de casa

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Frágil e vulnerável, o idoso é vítima de violência dentro e fora de casa, nas mais diversas modalidades de agressão. Pode começar com uma resposta atravessada de um neto ou filho impaciente com as limitações do velho; chegar a ataques físicos ou sexuais durante um procedimento de rotina no dia a dia, como a alimentação; e culminar no descaso de médicos e enfermeiros na fila do posto de saúde ou no internamento hospitalar. Isso sem contar os riscos de ser alvo da malandragem alheia no meio da rua, como um assalto na porta do banco, ao retirar o dinheiro da aposentadoria.

Estratégias para prevenir esse tipo de situações e promover a atenção aos idosos foram discutidas em Curitiba na última segunda-feira, Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa. O seminário, que reuniu especialistas de várias áreas – da saúde à segurança pública –, foi promovido pelo Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa do Paraná (Cedi-PR).

Tratar da violência contra o idoso envolve questões abrangentes. Precisa cuidar da manutenção de delicados vínculos familiares, desenvolver políticas públicas de atendimento a vítimas até a remodelagem da forma de abordagem médica em unidades de saúde e hospitais. "É uma questão de saúde pública, principalmente se observarmos a inversão da pirâmide demográfica no país. O aumento da população idosa exige que mudemos também as estratégias de atendimento. Esse paciente idoso tem uma perspectiva maior de convívio e permanência na unidade de saúde, diferente da mulher gestante ou do recém-nascido", aponta o médico Vitor Moreschi, especialista em saúde da família e saúde pública.

Moreschi defende a ampliação e investimento na atenção básica de saúde, para acompanhamento do idoso em casa, em ambiente familiar, em uma atitude preventiva à violência. "A ideia é humanizar o atendimento, torná-lo mais comprometido. O acompanhamento do paciente em casa já dá um recado à família: esse indivíduo é importante e está sendo monitorado. Sinais de abandono, negligência e maus-tratos são identificados no início, o que ajuda a reduzir os efeitos, ou até mesmo a evitar a agressão, pois a família também está orientada", explica.

O cuidado em uma ponta alivia a pressão na outra. Com pacientes acompanhados, os encaminhamentos para unidades de saúde e hospitais passam por uma triagem mais rigorosa. Só é internado quem precisa. Essa prática reduz outro tipo de violência comum contra o idoso: o descaso no atendimento hospitalar. "Idoso tem prioridade em fila de banco e em fila de mercado. Mas é esquecido na fila do posto de saúde. As vagas são restritas e é triste ver equipes de saúde tendo de escolher para quem vai dar um único leito de UTI, por exemplo", diz.

O treinamento dos profissionais de saúde contribui para a redução dos índices de violência. Moreschi defende a criação de uma espécie de reconhecimento público à instituição que investe nesse atendimento diferenciado. "A proposta é criar o Hospital Amigo do Idoso. Nestas unidades, a equipe multidisciplinar, além de estar preparada para o trato do idoso, daria orientação para a família, que precisa saber da evolução da reabilitação do paciente, para ajudar na sua recuperação. Gente com sequela de AVC pode ter dificuldades para deglutir alimentos sólidos, por exemplo. E nem sempre a família sabe disso."

Efeitos

Enquanto esse novo modelo de atenção ao paciente idoso não é implantado, a violência ocorre nas mais variadas formas. E, quase sempre, o agressor é o familiar ou cuidador doméstico, justamente quem deveria promover o bem-estar do maior de 60 anos, muitas vezes portador de doenças crônicas múltiplas, fragilizado pela dependência e falta de autonomia. "A violência agrava ainda mais a saúde desse indivíduo. Uma média de 60% dos idosos vitimizados acaba desenvolvendo alguma forma de depressão, o que afeta diretamente a sua qualidade de vida e longevidade", observa Moreschi.

Dados do serviço de atendimento à vítima em domicílio, da Fundação de Ação Social da prefeitura de Curitiba, mostram que a maior parte dos registros de maus-tratos contra idosos em 2008 foi promovida por filhos ou netos. Foram 256 registros, sendo 96 deles protagonizados por familiares. O Cedi-PR também mantém o Disque-Idoso, serviço de informação de direitos e denúncias de violência, que recebe denúncias e pedidos de informações de como tratar a convivência conflituosa entre idosos e a família. O Disque-Idoso é apenas uma amostra do nível de violência a que idosos são submetidos. A maior parte dos registros fica retida nos municípios. "Em 90% dos casos, a visita da assistência social à família já resolve o problema. Muitas vezes, o idoso é vítima da falta de orientação e desinformação dos cuidadores domésticos", explica Dulce Maria Darolt, coordenadora do serviço.

O Cedi-PR se esforça para sensibilizar prefeitos e autoridades públicas na criação de conselhos municipais, justamente para fortalecer a rede de proteção à pessoa idosa. Dos 399 municípios paranaenses, 160 têm conselhos municipais, e só metade mantém atividade plena, segundo o presidente do Cedi, Bohdan Metchko. "A descentralização do conselho ajuda a agilizar os processos e a traçar estratégias de ação em cada uma das cidades. Isso aproxima o atendimento, aumenta a eficiência das ações de proteção", diz.

Outro mecanismo de atendimento diferencial às vítimas idosas é a Delegacia do Idoso. Há dois anos o Ministério Público articula a criação de uma unidade policial especializada no Paraná, nos moldes das que atendem mulheres e adolescentes. "O idoso vitimizado precisa de uma abordagem diferenciada. A maior preocupação dele é preservar os vínculos familiares. Quando ele denuncia o abuso, a primeira coisa que pede é para não prender o filho ou neto. Ele quer acabar com o próprio sofrimento, mas manter a família unida também", explica a promotora de justiça Rosana Beraldi Bevervanço, do Ministério Público do Paraná.

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