
Não precisar esvaziar o bolso conta, e muito, na hora de pegar a mochila e ir para a praia. E uma boa opção para se poupar dinheiro na viagem de verão é se hospedar em um dos hostels ou, em bom português, albergues espalhados pelo Litoral do Paraná, tanto nas praias como nas cidades históricas. Esse tipo de hospedagem existe na Ilha do Mel, Matinhos, Guaratuba e Paranaguá. Além de economizar, o veranista que optar por um hostel ainda tem outras vantagens mas com certos empecilhos. É preciso enfrentar quartos e banheiros coletivos, compartilhar a cozinha e dividir o varal. A compensação vem da companhia de gente até então desconhecida, das festas e dos passeios.O primeiro passo para a escolha de um hostel é saber exatamente o programa e o tipo de gente que pretende encontrar por lá. Há opções mais familiares, como o Beira Mar em Matinhos, aos frequentados sobretudo por casais, a exemplo do Guaratuba Hostel. Definitivamente é a socialização que diferencia os hostels de hotéis e pousadas e não, necessariamente, o preço. De acordo com o italiano Juan Moretti, que está hospedado no Zorro Hostel, na Ilha do Mel, com os irmãos Antonio e David, há albergues tão caros quanto outros tipos de hospedagem, mas certamente eles são as opções mais festivas.A estada em um hostel, como o Zorro, que é um típico ponto de encontro de mochileiros, é como abrir um álbum de histórias, muitas delas que os viajantes contam com entusiasmo e outras que ficam escondidas para evitar comprometimentos. A maioria dos hóspedes nunca se viu antes, mas não é difícil descobrir reencontros de quem já se cruzou por outros albergues do mundo ou amizades que sobrevivem desde a parada anterior. Este é o caso do casal paulista Susan Grey e Guto Marchi e dos argentinos Carla Gonzalez e Mariano Andrade. Os quatro se cruzaram pela primeira vez em Curitiba, no albergue Roma, onde foram parar atraídos pela programação da Oficina de Música. Lá mesmo acharam a propaganda do próximo destino, o Hostel Zorro, na Ilha do Mel, e seguiram viagem juntos para o Litoral. Foi um caso de empatia à primeira vista facilitado, é claro, pelo gosto musical dos envolvidos Guto e Mariano são músicos, Susan é cantora. Rapidamente, os dois rapazes começaram a trocar dicas: o brasileiro recomendou ao amigo argentino nomes como o bandolinista Hamilton de Holanda e o violonista Marcus Tardelli, além de registrar sugestões como Jorge Drexler e Juanjo Dominguez para ouvir depois.
E-mails devidamente anotados, a amizade tem tudo para seguir adiante. "O legal do hostel é a interação. A sensação de que é uma república da qual todo mundo cuida e se sente parte. A geladeira é de todos, sujou tem de limpar, tem de tirar as louças da mesa. Você aprende a lidar com a diversidade", diz Susan. Dormir em albergues não é novidade para ela, que o faz desde 1998, e até em castelo já se hospedou era um hostel na Europa. "Parecia cena do filme do Harry Potter", diverte-se.
A falta de um padrão, tanto de preço quanto de estrutura, é o que mais a surpreende para o bem ou o mal nesses lugares. Nunca sabe, por exemplo, se encontrará roupa de cama. Mas ela que já topou quarto coletivo mais de uma vez garante: "Dá para saber como a pessoa é pela cama". Quem topa dormir em quartos compartilhados está sujeito a companheiros que não têm o costume de tomar banho, a roncos insistentes durante a noite e o trânsito ininterrupto de hóspedes. "Tem quem chegue às 2, às 3, às 4 horas da manhã", diz o músico. Não dá para se incomodar aliás, essa é a regra de ouro do albergue.
"Já eu só preciso de uma cama", diz o hóspede norte-americano Scott Pauly, levando a sério esse espírito. Por isso, desde que saiu sozinho da Califórnia, em setembro do ano passado, ele já procurou abrigo em albergues da Guatemala, El Salvador, Colômbia e Brasil. "Às vezes me sinto sozinho, mas acabo sempre conhecendo alguém", diz ele, que, agora, está na Ilha do Mel.
Viajando sozinho, Scott admite que "alguns hostels são bons lugares para conhecer garotas", mas desvia do assunto se lhe perguntam da irlandesa com quem conversa longamente há dias conforme o relato indiscreto de duas hóspedes holandesas, que, por sua vez, não quiseram confessar seus próprios flertes. É de Scott e sua longa experiência de cinco meses a reclamação mais curiosa sobre os hostels: "Como você sempre conhece pessoas, sempre tem as mesmas conversas: de onde veio, quanto tempo vai ficar? É muito cansativo".
Disposição para festas é regra
Quem vai a albergues, normalmente já está disposto a um pouco de farra. O aviso é do músico paulista Guto Marchi que, no entanto, não ficou até o fim da festinha armada na quarta-feira à noite no Hostel Zorro, com direito a caipirinha no pilão de um metro de altura e churrasco. Os muitos outros que ficaram se espalhavam em casais e grupos.
Na varanda, um israelense tocava violão e flauta para duas argentinas, que cantavam de "No Woman No Cry" a um xote brasileiríssimo. Do outro lado, era um tal de jovens espanhois, holandeses, irlandeses, sul-africanos, neo zelandeses, israelistas e norte-americanos reunidos em roda e conversando em idiomas misturados. Segundo as holandesas Eva Kuhlemeier e Maudi Admiraal, alunas de estudos latino-americanos, até dois dias antes, ninguém se conhecia, mas a esta altura já indicavam uns aos outros os melhores lugares para passear e comer não só na Ilha do Mel, mas nas outras cidades por onde já passaram.




