
Em Antonina, o ronco das cuícas e a batida dos pandeiros ignoram o fim do carnaval e ecoam para além dos dias de folia. A cidade tem uma programação cultural que oferece espetáculos de samba e música popular durante o ano todo.
Os responsáveis pelo atrativo calendário musical são os moradores, que se organizam em um grupo de samba e outro de seresta: Amigos da Carioca e Canto do Mar, respectivamente.
O carro-chefe do carnaval prolongado são as apresentações de samba, que ocorrem todos os sábados (exceto nos dias de chuva), a partir das 19 horas, na Praça da Carioca. O grupo é formado por 12 apaixonados por música brasileira, entre homens e mulheres, e, em sua maioria, autodidatas. "Como temos um carnaval forte, que tem escola de samba, somos bons de ouvido e aprendemos a tocar música com facilidade", conta o aposentado Onamar de Castro, 79 anos, um dos percussionistas do grupo.
O grupo foi formado há três anos, a partir do interesse comum de um grupo de amigos. "Não há um grande marco. Foi algo espontânea", esclarece Castro.
A qualidade do samba feito pelos antoninenses atrai muita gente de outras cidades e até de outros países. "Eu gosto muito de música brasileira e adoro as canções que tem palavras engraçadas", revela o engenheiro francês Juseph Barcelo, 55 anos, que passava as férias em Curitiba e aproveitou para conhecer o Litoral do Paraná.
No repertório dos Amigos da Carioca estão canções clássicas, de compositores como Cartola e Noel Rosa, executadas como manda o figurino dos tradicionais sambistas: com todos os músicos vestindo roupas e sapatos brancos. O público, embora não esteja uniformizado, também participa da cantoria. "Quando estamos tocando, sempre perguntamos se alguém quer cantar uma música ou declamar uma poesia. Muita gente aceita e se apresenta. É assim que gostamos de interagir com a plateia", explica Castro.
Outra forma de agradar os espectadores é incluir canções famosas no repertório. "Sempre sai um bolero e algumas músicas sertanejas. A ideia é fazer um som bem popular mesmo", conta o percussionista.
Noite de Seresta
No primeiro sábado de cada mês, a noite de samba é incrementada com a apresentação do grupo Canto do Mar, que dá o ar da graça logo que os Amigos da Carioca deixam a praça que é o ponto de partida da seresta.
Trajando roupas típicas dos anos 1950, os seresteiros, cerca de 20, empunham seus violões e circulam pela região histórica da cidade cantando para aniversariantes e demais moradores que solicitam a homenagem. Os mais fiéis encomendam uma placa personalizada (vendida por R$ 20), que é colocada em frente de casa, com o nome da canção favorita. Onamar, por exemplo, escolheu a música Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e pode ouvi-la sempre que os seresteiros passam por seu bairro.
A noite mensal de seresta, que é realizada há oito anos, dura cerca de duas horas e sempre deixa o público pedindo bis, pois termina mais animada do que começou. "Na última casa que a gente visita, praticamente sai um baile, porque a turma toda se anima e começa a dançar", conta o aposentado José Ismael dos Santos, 60 anos, um dos violonistas do grupo.
Músicos são orgulho local
Os sambistas e seresteiros enchem de orgulho a comunidade de Antonina. Nos dias de apresentação, é comum encontrar entre o público camisetas com o nome dos grupos os Amigos da Carioca comercializam as peças como forma de custear a compra e o conserto de instrumentos.
O apoio também é manifestado com a divulgação das apresentações. Constantemente, a estação de rádio local e um carro de som anunciam os eventos e convidam moradores e visitantes a acompanhá-los. Também há cartazes distribuídos pelos pontos mais visitados da cidade.
A estratégia funciona. Para alguns antoninenses, os shows de samba são programa obrigatório. "Já assisti mais de dez vezes e sempre venho de novo. É gostoso porque a gente se distrai", conta a aposentada Ruzina Alves de Morais, 66 anos, moradora de Antonina.
O clima romântico que se estabelece durante as apresentações também conquista muitos casais. "Ouvir um sambinha e uma MPB de qualidade é um programa ideal para se fazer a dois", afirma o comerciante Antonio Pupo, 50 anos, que costuma acompanhar os shows na companhia da esposa, Sônia, 50 anos, outra das antoninenses apaixonadas pelo ritmo.




