
Há muitos e muitos anos, o litoral paranaense abrigou um povo que ficou conhecido como sambaquieiro. Eles viveram na pré-história, há até 10 mil anos, bem antes da chegada dos colonizadores portugueses. Vestígios desta população existem até hoje: são os sambaquis, aglomerados de conchas, ossos humanos e de animais e instrumentos. Há mais de 300 sambaquis em todos os municípios da costa litorânea do estado. Mas muitas dessas relíquias históricas e pouco exploradas estão se perdendo pela falta de fiscalização, pela ação do homem e da natureza.
Um dos sambaquis da baía de Guaratuba, localizado na margem do Rio das Laranjeiras, parece ir por esse caminho. Pescadores da região desmataram a vegetação que cresce em cima do acumulado de material orgânico e construíram uma cabana. Por causa disso, a erosão faz com que artefatos indígenas e ossos de milhares de anos atrás sejam perdidos pela ação da maré.
Integrantes da ONG ambiental Instituto Guaju fizeram denúncias sobre a situação aos órgãos responsáveis. A Polícia Ambiental chegou a desmontar a cabana duas vezes, mas ela voltou a ser construída logo depois. Impotentes, eles decidiram recolher os materiais mais aparentes, que corriam risco de serem levados pelas águas.
Então, pediram a uma especialista em Patrimônio Histórico para catalogar e armazenar essas relíquias de maneira correta, para em seguida encaminhá-los ao Instituto do Patrimônio e Artístico Nacional (Iphan). "Entramos várias vezes em contato com o Iphan para eles se envolverem, mas não temos muito retorno", afirma Fabiano Cecílio da Silva, diretor executivo da ONG.
Estrago histórico
A destruição dos sambaquis paranaenses vem de longa data, segundo a arqueóloga Cláudia Inês Parellada, do Museu Paranaense, que possui acervo com itens dos povos sambaquieiros em exposição permanente. O material encontrado nos sambaquis chegou a ser usado como matéria-prima para fabricar cal de pavimento para ruas e estradas do Brasil colonial.
As primeiras leis de proteção estaduais e federais vieram apenas em 1950. "Há uma grande dificuldade de fiscalizar esses espaços. Alguns ainda não têm identificação e são muitos para monitorar", conta Cláudia. O trabalho de fiscalização é feito pelo Iphan, a partir de denúncias.
"É necessária também a ajuda da comunidade", aponta a arqueóloga. Ela ressalta que os sambaquis fazem parte da riqueza histórica do estado e que pode nos ajudar a compreender melhor o passado e a maneira como as populações antigas usavam o meio ambiente.
Os sambaquis também são alvo de pessoas mais, digamos, sonhadoras, que procuram tesouros escondidos. "Estamos falando de indivíduos pré-históricos, que viviam há milhares de anos. Nessa época não havia fundição de metal. Só dá pra encontrar osso, concha e pedra mesmo", avisa.
Que outros patrimônios do nosso Litoral estão em risco? Por quê?
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