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Um verdadeiro mar de histórias

Da Colônia de Pescadores de Matinhos brotam “causos” dos bons. O dia a dia dos pescadores pode ser sofrido, mas nunca é monótono. Nada se compara à liberdade e às surpresas que só o mar oferece

Cenas do cotidiano da pesca. Ainda de madrugada, Márcio Ramos e Alex Silva preparam as embaracações para entrar no mar | Daniel Castellano / Agência Gazeta do Povo
Cenas do cotidiano da pesca. Ainda de madrugada, Márcio Ramos e Alex Silva preparam as embaracações para entrar no mar (Foto: Daniel Castellano / Agência Gazeta do Povo)
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Fartura ou redes perdidas. Risadas ou lágrimas. Nenhum pescador imagina o que o destino lhe reserva depois que ele entra no barco e sai para o mar. E é justamente essa incerteza, aliada à liberdade que a profissão proporciona, que faz com que todo o dia eles levantem cedo, deixem seus familiares em casa e enfrentem – de peito aberto – mais uma vez o oceano que lhes fornece o sustento.

"Há dias em que você sai e volta com uma tonelada de peixe. Há dias em que você volta só com lixo na rede. Pesca é assim. Por isso que é tão fascinante", lembra o pescador Umberto Giacomoni, 33 anos, o Chucky, um dos muitos pescadores da Colônia de Matinhos. Segundo ele, na pesca, técnica e sorte são fatores indissociáveis. "Para pegar a tainha, que aparece por aqui a partir de maio, não basta soltar a rede e esperar. Afinal, é um dos peixes mais inteligentes desse mar", conta. "É preciso entendê-la bem e criar estratégias para cercá-la, senão ela foge facilmente."

Porém, toda a perícia não basta, se o sujeito não tem sorte. "Pescando com um camarada azarado, quantas vezes eu chegava num ponto repleto de cardumes e logo o barco enguiçava. Era azar puro. Sem explicação", garante Chucky. Fonte de surpresas

O pescador Ideraldo Luís Santana, 43 anos, o Dino, é outro que deixou de buscar explicações lógicas no mar. "Vemos cada coisa que, contando, vão falar que é história de pescador. Mas o que dizer do peixe espada que apareceu aqui, furando a perna de um banhista?", diz ele, referindo-se a um marlin de dois metros que surpreendeu a todos na Praia Central de Matinhos em 2008. "Esse peixe vive muito distante daqui. Como é que foi parar em Matinhos?", questiona.

Mas nada se compara em surpresa, segundo Dino, à que ele teve ao se deparar com um tubarão tintureira de dez metros, que pesava 700 quilos. "Foi na década de 1980. O cação que ficou preso na rede do meu amigo Jango era tão grande, que ele precisou voltar na colônia para pedir ajuda, senão não conseguia embarcar o peixe. Eu e mais alguns amigos fomos ajudá-lo." Confirmando a história, Jango – João Silva, 62 anos, – lembra como essa pesca foi tão extraordinária que virou reportagem no Fantástico. "Enchemos um balde só com o óleo do fígado dessa mangona (espécie de tubarão)", conta Jango.

Um dia após o outro

De todas as histórias vividas pelos pescadores de Matinhos, a dos primos Márcio Ramos, 40 anos, e Alex Silva, 32, é uma das que mais impressiona. Há três anos, no dia 20 de fevereiro, os dois foram encontrados à deriva no mar, perto da Ilha dos Currais. Isso após terem passado 24 horas sem comer, beber ou dormir. Os dois naufragaram próximo da Barra do Saí, depois que uma série de ondas invadiu a embarcação que eles ocupavam. O barco foi a pique tão rápido, que não tiveram tempo de vestir coletes salva-vidas nem de salvar uma garrafa d’água. Cada um só conseguiu agarrar um pedaço de isopor e um galão vazio de combustível, o suficiente para mantê-los boiando.

"À noite, sentia os peixes passando debaixo de nós. O medo era que viesse algum tubarão para comer a gente", conta Alex Silva, que lembra ainda de ter tido alucinações durante a madrugada no mar. "Ele enxergava veleiros vindo em nossa direção. Eu concordava para não desanimá-lo, mas na verdade não havia nada. Só no dia seguinte, um pescador de Ipanema passou por nós e finalmente nos resgatou", conta Márcio Ramos.

Depois de salvos e de terem ido direto para o hospital, onde receberam seis litros de soro cada um, os primos contam que pensaram seriamente em mudar de profissão. "O trauma foi grande", diz Alex, que chegou a ficar um mês sem trabalhar. O intervalo na pesca, porém, não durou muito e logo os primos estavam trabalhando juntos novamente. "Essa vida é sofrida. Mas não dá para trocar a liberdade que temos no mar, sem patrão e sem destino, por nada nesse mundo. Até tentei, mas vi que o meu lugar é aqui mesmo", afirmava Alex, pouco antes de partir para mais uma jornada ao lado do primo Márcio.

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