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Segurança

Violência chega antes que o progresso em Adrianópolis

Assaltos se tornam comuns um ano depois da pavimentação da Estrada da Ribeira

Foram quatro décadas e meia à espera do asfalto, sonho alimentado por todos desde a elevação de Adrianópolis à condição de município. Mas antes de chegar até ali, o tapete de piche e britas que recobriria toda a Estrada da Ribeira teria de passar antes por Colombo, Bocaiúva do Sul, Rio Branco do Sul e Tunas do Paraná. A espera dos adrianopolitanos terminou há um ano. Acabaram as epopéias de seis horas entre pedras e ribanceiras ao longo dos 120 quilômetros e 536 curvas até a capital, acabou o isolamento de dias seguidos imposto pelas chuvas. Mas algo não foi bem. Era para o asfalto trazer o progresso, porém a violência chegou primeiro.

Coisas estranhas começaram a acontecer de um ano para cá. O sargento da Polícia Militar Ronaldo Bissoni, que há três anos faz as vezes de delegado na cidade, já não atende só casos de embriaguez e briga de vizinhos. "Mudou o tipo das ocorrências", constata. Passou da simples contravenção para crimes violentos. A bandidagem pegou de surpresa esta cidade onde se costumava dormir de janelas abertas. A onda de violência – sim, mais de três crimes num ano já é preocupante por ali – começou pelos pais do empresário Antônio Osni Bontorin. Quem diria que há dez meses eles iriam entrar para as estatísticas de cidade grande nesta cidadezinha de 7 mil habitantes.

Sábado, 23 de abril, 23 horas. Dois homens, pistolas em punho, rendem e amarram o vigia Joel dos Santos Farias. Alcançam os fundos do supermercado em obras e numa fração de segundos chegam ao piso superior da loja de materiais de construção. Arrombam a porta e acordam aos solavancos o casal Ildo Bernaldo Bontorin, de 74 anos, e Maria de Lurdes Secom Bontorin, de 70 anos. Os dois são amarrados e amordaçados, não sem antes ter de abrir o cofre. Ildo, que tem quatro pontes de safena, e Maria, que tem bronquite, ficaram 15 minutos imobilizados, até o vigia conseguir se soltar e depois desamarrá-los. A essa altura os bandidos estavam longe.

Levaram até as moedas. Mas o que pesou no bolso de Osni, que durante o assalto estava no sítio, foi a pilha de cheques dos clientes do mercado e da loja de materiais de construção. Um prejuízo de R$ 30 mil. Os cheques começaram a ser descontados em São Paulo. Osni passou o número das contas para as polícias paulista e paranaense, mas nada aconteceu. O drama da família dele não é o único episódio. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Adrianópolis (Acia), Altimar Medeiro dos Santos, também teve sua loja de materiais de construção assaltada. Levaram R$ 8 mil. Foi em julho, três meses depois do assalto aos pais de Osni.

Os problemas não pararam por aí. Em dezembro, uma caminhonete F-1000 foi furtada, coisa até então impensável na cidade. O veículo foi visto por um amigo do dono três horas depois num bairro da periferia de Curitiba. No mês seguinte, outra tentativa de furto, desta vez de uma caminhonete Toyota. O furto só não se concretizou porque a ação dos bandidos foi flagrada pelo vigia de um posto de gasolina, um dos três contratados na cidade logo depois do assalto à loja de Osni. Como no telefone 190 da PM ninguém atendia, o vigia decidiu gritar. Os ladrões fugiram. Mais ou menos na mesma época, outro caso policial assustou a cidade.

De madrugada, ladrões encostaram um caminhão no portão do cemitério e fizeram uma limpa nos túmulos. Levaram o que puderam de placas de bronze e blocos de mármore. Ninguém na cidade tem dúvidas de que nesta e nas outras ocorrências os bandidos eram gente de fora. "O bandido sai de Curitiba, assalta aqui e volta para lá", diz o prefeito Osmar Maia (PMDB). Uma facilidade, segundo ele, trazida pelo asfalto da Estrada da Ribeira. O sargento Bissoni também acredita nesta hipótese. Pode ser apenas coincidência, mas eles se perguntam porque não havia esse tipo de ocorrência antes da pavimentação.

O asfalto trouxe uma nova realidade social, mudou comportamentos e deixou as pessoas mais desconfiadas. Mas a polícia continua igual. São dez policiais militares e três viaturas para atender a um município cujo território é extenso e acidentado, todo ele formado por morros. Já para os bandidos, a nova estrada tornou-se uma rápida e fácil rota de fuga. Nem por isso os nativos se arrependem. "É o preço do progresso", sintetiza o presidente da Acia. A pavimentação trouxe uma perpectiva de desenvolvimento que ainda não se concretizou, mas que alimenta as esperanças de todos em Adrianópolis.

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