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Epidemia urbana

Violência virou problema de saúde pública

São Paulo – Os números da violência urbana no Brasil são alarmantes. Só na população até 19 anos, a taxa de homicídios saltou de 3,1 mil por 100 mil habitantes, em 1980, para 12,6 mil em 2002. Os dados são do Ministério da Saúde e foram levantados pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), que acaba de lançar o balanço "Homicídios de Crianças e Jovens no Brasil – 1980–2002". "É uma verdadeira epidemia, por isso a violência é tratada como um problema de saúde pública", alerta a coordenadora do NEV, Nancy Cardia. "É preciso muita vontade política para mudar isso e também capacitar a polícia para atuar com os jovens", argumenta a doutora em Saúde Pública pela USP e biomédica Cynthia Rachid Bydlowski.

Para reduzir esse índice, o Ministério da Saúde, em parceria com prefeituras, secretarias municipais de saúde e a Faculdade de Saúde Pública da USP, implantou núcleos de prevenção em todos os municípios brasileiros. "O projeto agora é capacitá-los e fazer uma rede de comunicação entre eles", conta a biomédica, que atua no projeto. A expectativa é mapear os principais problemas que levam à violência em cada cidade. "Além disso, envolver governo, polícia e todos os setores competentes para fazer uma proposta de ação", explica Cynthia.

Um dos entraves seria a desinformação. Existe uma ficha do ministério para que o agredido relate o caso de violência. O documento não tem fins jurídicos, mas pouca gente a preenche. "Ninguém quer se comprometer", diz acreditar a biomédica.

Três experiências de combate ao problema vêm dos locais mais violentos da América Latina. Uma do Jardim Ângela, zona sul da capital paulista, e duas da Colômbia. Em São Paulo, o padre Jayme Crowe conseguiu mapear problemas e enfrentá-los em parceria com a comunidade. Em Bogotá, a taxa de homicídios caiu 75% em dez anos, e em Medelín, recuou de 177 para 57 (por 100 mil habitantes) em dois anos. "O que mais me espanta na experiência colombiana é que, no fundo, trata-se de fazer os poderes públicos cumprirem sua função", observa a professora de História Moderna e Europa e doutora em História do Brasil pela PUC-SP Vera Lúcia Vieira. "Souberam admitir que o combate à violência com violência só gera mais violência", acrescenta.

"Uma das múltiplas ações na Colômbia foi combater, de fato, a corrupção na polícia e treinar estes profissionais", lembra a professora Vera. "A corrupção desmoraliza os profissionais que são honestos", frisa Nancy, do NEV. "E a corrupção nessas forças é um meio de fazer um consórcio com o crime", completa.

Perspectiva

Para o Brasil, os especialistas alertam que, se as regras do jogo não mudarem – superlotação das cadeias, complacência com a corrupção dentro das instituições, falta de pessoal e de capacitação, ausência de projetos para inclusão dos detentos e de seus familiares e falta de perspectivas para os jovens –, pode ocorrer um episódio traumático. "Infelizmente, o passado nos indica que, sem traumas, não há mudanças no Brasil", analisa Nancy. Vera também não vê uma solução a curto prazo: "A violência que hoje grassa nas escolas indica que falta pouco para que ocorra uma verdadeira tragédia na cidade de São Paulo."

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