Certo dia, um professor apareceu na escola com um tabuleiro de xadrez. Foi aquele alvoroço. Teve até de apartar os mais afoitos que se pegaram no tapa para inaugurar o jogo. Ao cabo de alguns dias, lá vem ele com mais novidades. Que tal as crianças serem as peças do xadrez? Fulana será a rainha, beltrano o rei, sicrano o bispo, e assim por diante. Não faltou quem pensasse: quem é esse cara com essas idéias malucas? O maluco em questão é Dimas de Mello Braga, um dos tantos professores da rede pública de ensino do Paraná que têm ajudado a tornar a escola mais educativa e agradável para as crianças. E eles não precisam de nada além do recreio e de muita criatividade.
Dimas é pedagogo e sempre foi apaixonado pelo xadrez. Dava um jeito de encaixá-lo até nas aulas de Educação Física. Levar o tabuleiro para a escola despertou o interesse, mas ele não queria ensinar o jogo, simplesmente. Precisava ser algo diferente. Uma idéia ganhou forma numa conversa com a mulher, a também pedagoga Jucelane Valério. Dimas aproveitou sobras de tinta e riscou um grande tabuleiro no pátio da escola. Os contornos foram moldados com papelão. As crianças se encarregaram da pintura, alternando quadrados pretos e brancos. Ficou bonito à beça. Não teve criança da Escola Municipal Piratini, no Pinheirinho, em Curitiba, que não quisesse aprender o jogo.
Envolvimento
Depois veio a iluminada idéia de fazer das crianças as peças de xadrez. Àquela altura valia quase tudo para colocá-la em prática. Dimas arrancou a haste do berço do filho para fazer o cetro do rei. A coroa foi comprada numa casa de umbanda, as roupas de cetim das crianças foram confeccionadas de graça pelas detentas da Penitenciária Feminina de Piraquara. De repente, o que era um projeto de Dimas passou a pertencer a toda a escola. Professores e pais de alunos se envolveram no trabalho. Até as crianças botaram a mão na massa e fizeram os escudos dos peões do xadrez com caixas de pizza e papel laminado.
Os ensaios são feitos na quadra de esportes ao som da cantata Carmina Burana, do alemão Carl Orff (1895-1982). As crianças trabalham com os professores na coreografia e não demoram a decorar cada passo da evolução no tablado. Dimas explica que a proposta do Xadrez Vivo, nome do projeto, é criar a dramatização do jogo, no qual os alunos compõem as personagens com fantasias, objetos e adereços que valorizam a batalha no tabuleiro gigante aguçando a imaginação. "Eles vivenciam a situação real do jogo como atores, valorizando o trabalho em conjunto, aumentando sua concentração e responsabilidade", diz o professor.
Piá na Roça
Hoje, o Xadrez Vivo é o orgulho da Escola Piratini, mas não o único. O projeto Piá na Roça, outra das idéias criativas de Dimas, consiste no cultivo de uma horta num terreno antes ocioso, um lugar para a criança botar a mão na terra e aprender sobre meio ambiente, biodiversidade e sustentabilidade. "Quando elas vão para a horta, não estão trabalhando, estão aprendendo", diz. "Um aprendizado para a vida toda". As mesmas idéias foram apresentadas antes em outras duas escolas municipais, mas não tiveram a mesma acolhida. Ponto para a Piratini. Ponto para a diretora da escola, Maria Vidal de Souza, que soube antever os benefícios da iniciativa.
Ela própria constatou que a atividade melhorou a disciplina das crianças, o poder de concentração, o raciocínio lógico, a criatividade, o autocontrole. "Sempre buscamos por meio do xadrez estabelecer relações com as demais disciplinas, melhorando dessa forma a aprendizagem em sala de aula", explica Dimas. O pedagogo vê no Xadrez Vivo um instrumento de ajuda aos alunos com dificuldades de aprendizagem, inclusive os hiperativos. "Eles passam a criar hipóteses que os levarão a construir o pensamento, estimulando-os a pensar e agir com autonomia", diz.
Atualmente, 80 das 168 escolas municipais de Curitiba têm o xadrez como atividade de sala de aula ou no recreio, mas não como o Xadrez Vivo de Dimas. Cada escola tem sua forma de trabalhar o jogo. Na maioria, compartilha o horário do recreio com brincadeiras que só estão se mantendo vivas graças ao empenho de abnegados professores e inspetores de escola, como as cantigas de roda, amarelinha, jogo da velha. Quanto ao xadrez, Dimas ainda sonha com o dia em que ele faça parte da grade curricular. Seria a contrapartida intelectual à disciplina de Educação Física.



