
O vaso sanitário é um dos grandes responsáveis pelo alto consumo de água nas casas que têm instaladas válvulas tradicionais para a descarga no banheiro. "O equipamento pode representar até 35% do gasto, enquanto o consumo do chuveiro tradicionalmente apontado como o vilão está na faixa de 30%", diz Selma Aparecida Cubas, professora do Mestrado Profissional em Gestão Ambiental da Universidade Positivo. Mas a tecnologia das empresas que produzem equipamentos sanitários evoluiu muito e hoje existem produtos que controlam a quantidade de água dispensada na descarga, lembra o professor do curso de Engenharia Ambiental e do Programa de Mestrado e Doutorado em Engenharia Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Carlos Mello Garcias.
Por isso os dois não economizam críticas à campanha da SOS Mata Atlântica que incentiva o xixi no banho como forma de economizar uma descarga por dia. Com essa prática, uma pessoa poderia deixar de usar 4.380 litros de água por ano, já que em uma descarga são usados 12 litros. Garcias lembra que desde o século 17 se sabe que a saúde pública depende do saneamento e a consciência a respeito dessa relação veio sendo construída aos poucos. Para ele, não é possível permitir que isso seja quebrado agora.
A professora Selma diz que o espaço do chuveiro não está preparado para receber o xixi. De acordo com ela, nem todos os ralos têm selo hídrico e aqueles que têm podem ficar impregnados pelo cheiro. Ela cita, ainda, o problema que os compostos da urina podem provocar no piso, que ficaria amarelado e exigiria muito mais água para a limpeza. A SOS Mata Atlântica, em sua campanha, informa que o xixi é composto por água (95%), além de uréia e sal.
Economia
Garcias ressalta que é importante ter consciência a respeito da escassez dos recursos hídricos, mas garante que há maneiras de economizar sem perder a proteção sanitária. Para Selma, basta verificar se não há vazamentos e reaproveitar a água da máquina de lavar, por exemplo. "Não precisamos chegar a esse ponto", diz, referindo-se à campanha pelo xixi no banho. "A gestão da água é bem mais ampla. Quem usa muito é a agricultura e a indústria. Então, é necessário um plano de gestão muito maior", afirma a professora.
O que é preciso fazer é buscar alternativas para o uso da água potável nos vasos sanitários. Garcias cita que na França, por exemplo, não são mais aprovados projetos em que não há previsão de utilização da água da chuva. Segundo ele, "se cada terreno tivesse um reservatório de pelo menos 500 litros para a água da chuva, não haveria enchentes."
"Países que já sofrem com o racionamento buscam o reuso de água", completa Selma. E ela lembra que também em Curitiba existe uma lei que exige dos empreendimentos o aproveitamento de água da chuva para o vaso sanitário. Na descarga também pode ser usada a água que sai do chuveiro e da pia, cita a professora. "Os grandes condomínios fazem tubulações separadas para aproveitar essa água."
Debate
Apesar das críticas, a SOS Mata Atlântica avalia que alcançou o objetivo desejado. Márcia Hirota, diretora de Gestão do Conhecimento, explica que a proposta da campanha é muito maior do que o combate ao desperdício de água. "É para chamar a atenção das pessoas e dizer que façam algo em favor do meio ambiente", afirma.
Segundo ela, foram ouvidos especialistas e todos garantiram que fazer xixi no banho não é prejudicial à saúde. "Não estamos dizendo para fazer num chuveiro público, mas em casa, logo que entra na chuveiro. Aí não tem problema nenhum. É mais para fazer pensar: se eu não faço isso, eu faço aquilo. Abrir a discussão foi legal", avalia.
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Serviço
O professor Carlos Mello Garcias faz palestras sobre o uso racional da água. O e-mail dele é carlos.garcias@pucpr.br.



