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Vazamento de dados

Abin teve acesso clandestino a grampos e a e-mails sigilosos

Arapongas da Agência Brasileira de Inteligência receberam senhas pessoais de policiais federais que permitiram o uso da máquina de escutas da PF

O delegado Protógenes é o suspeito de ter permitido o acesso dos agentes da Abin a dados sigilosos da Satiagraha | José Cruz/ ABr
O delegado Protógenes é o suspeito de ter permitido o acesso dos agentes da Abin a dados sigilosos da Satiagraha (Foto: José Cruz/ ABr)

Funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), mesmo trabalhando de forma clandestina na Operação Satiagraha, tiveram livre acesso à máquina de grampos da Polícia Federal e a e-mails interceptados pela PF.

Para ter acesso à máquina que faz grampos – conhecida como "Guardião" –, os agentes da Abin utilizaram senhas de policiais federais que são intransferíveis e que poderiam ser usadas apenas por agentes federais legalmente habilitados. A revelação sobre o acesso de arapongas da Abin ao Guardião foi feita por um funcionário da própria agência, Jerônimo Jorge da Silva Araújo. Em depoimento no Inquérito da PF 24.447/08, que investiga o vazamento de dados da Satiagraha, Araújo disse ter sido "introduzido clandestinamente" nas instalações da superintendência da PF em São Paulo, em área de acesso controlado do serviço de inteligência, onde "trabalhou livremente e passou a ouvir e a degravar áudios interceptados pelo sistema, no bojo da operação em questão".

"Borba" e "Chauvet" foram as senhas utilizadas por arapongas da Abin para ter acesso ao Guardião. Elas são de uso regular dos agentes da PF Marlon Brás Cruz Borba e Gilberto Augusto Leon Chauvet. O inquérito da PF que apura o vazamento de dados da Satiagraha, revela que ambos não estiveram em missão na cidade de São Paulo, entre março e maio, mas suas senhas foram usadas intensamente nesse período. "Portanto, não foram eles (Borba e Chauvet) que fizeram os acessos ao Guardião", assinala documento confidencial da PF.

O inquérito da PF descobriu que os agentes da Abin que trabalharam na operação tiveram acesso a dados sigilosos como diálogos, por e-mail, do banqueiro Daniel Dantas e de sua irmã, Verônica, com funcionários de escritórios de advocacia em Nova Iorque e no paraíso fiscal das Ilhas Cayman.

Os documentos teriam sido repassados a arapongas pelo delegado Protógenes Queiroz, que comandou a Satiagraha. Segundo relatório assinado pelo delegado Amaro Vieira Ferreira, responsável pelo inquérito que apura vazamento de informações, agentes da Abin revelaram detalhes da operação que vinha sendo feita pela PF, inclusive sobre investigações internacionais. O oficial de Inteligência Luiz Eduardo Melo, lotado em Brasília, disse em depoimento que o banqueiro passou a diminuir a troca de informações com escritórios depois da reportagem publicada em abril, no jornal Folha de S. Paulo, sobre a operação que seria deflagrada contra ele em julho.

O funcionário da Abin Márcio Seltz confirmou que os e-mails interceptados foram entregues aos funcionários da agência pelo delegado Protógenes. Seltz contou que, numa das ocasiões, recebeu documentos da Telecom Itália, Brasil Telecom e de fundos de pensão. Dantas era um dos sócios da Brasil Telecom. Segundo Seltz, o delegado pedia a tradução sem explicar para que serviria o material.

Pelo menos quatro funcionários da área operacional da Abin faziam o trabalho de triagem dos e-mails, descartando os que eram considerando sem importância e selecionando o que deveria ser encaminhado ao comando da operação. Ainda num dos trechos do relatório, o agente da Abin Thelio Braun D´Azevedo dissera que quatro servidores da agência recrutados por ele para atuar na operação não tinham conhecimento de que estariam trabalhando para a PF. Gilberto Caldeira Landim, também da Abin, confirmou o acesso a dados sigilosos e aos grampos.

O delegado Amaro Ferreira, que preside o inquérito, recusa-se a falar sobre o caso. O juiz Ali Mazloum, da 7.ª Vara Federal, decretou o sigilo no inquérito e também se nega a falar sobre os autos. A Satiagraha foi idealizada pelo delegado Protógenes Queiroz. A PF está convencida de que foi ele, na condição de comandante da operação, quem autorizou o uso de senhas por agentes da Abin e o acesso às informações sigilosas. A polícia planeja indiciá-lo criminalmente. Protógenes disse não temer seu futuro na instituição.

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