
Ao contrário do que se esperava, a viagem da presidente Dilma Rousseff à Índia nesta semana não parou o Congresso Nacional. Pelo contrário: a pauta avançou em assuntos polêmicos. Na Câmara dos Deputados, a Lei Geral da Copa suspendeu a proibição da venda de bebidas alcoólicas em estádios no evento. No Senado, o projeto que equipara o teto da previdência do funcionalismo público federal ao dos trabalhadores da iniciativa privada também foi autorizado. A ação dos parlamentares é considerada como um recado para a presidente, taxada de autoritária na negociação entre Legislativo e Executivo.
Responsabilidade
Para o secretário nacional de Comunicação do PT, deputado federal André Vargas, os deputados apenas assumiram suas responsabilidades nos projetos. "A função do Congresso é analisar e votar as matérias. Isso mostra a responsabilidade da maioria dos parlamentares", diz. No entanto, Vargas confirma a dificuldade da presidente no relacionamento com os seus colegas. "Ela [Dilma] tem o perfil de gestora. Se a mediação política não é feita pelo governo, ela deve se transferir ao Congresso", afirma.
Líder da bancada do PPS na Câmara, o deputado federal Rubens Bueno diz que as aprovações são uma mensagem à presidente. "Quanto mais democrático o exercício do poder, melhor para o país", critica. Na avaliação de Bueno, a forma como Dilma trata o Poder Legislativo atrapalha o desenvolvimento do Brasil. "A presidente não reconhece o Congresso como uma das fontes de poder do país, pensando que o Legislativo é mera confirmação de suas vontades."
Para o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Caldas é enganoso pensar que somente a viagem da presidente fez o Congresso se mobilizar isoladamente. "Alguém precisa negociar em nome do partido majoritário e dizer quais são os interesses", afirma. De acordo com Caldas, Dilma está cometendo os mesmos erros do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "No segundo mandato, o Lula fez acordo para garantir a governabilidade e ela está desfazendo esses acordos, quando precisa da maioria da Câmara e do Senado", explica.
História
O cientista político Antonio Octavio Cintra diz que a falta de articulação de Dilma se deve ao seu passado. "O perfil dela é de alguém que veio da guerrilha, que requer autoritarismo para sobreviver. Ela não foi treinada politicamente para o estilo democrático de agir", opina. Na avaliação de Cintra, a maior dificuldade da presidente é reagir às exigências por cargos e verbas para emenda. "Embora a base tenha dado recado que é possível fazer de outra forma, no fundo, as reivindicações por cargos e por liberação de recursos para emendas vão persistir."
Entenda o casoSituação ficou mais tensa no segundo ano do mandato
Desde o ano passado, a presidente Dilma Rousseff sofre com as negociações feitas entre o seu governo e a base de apoio de senadores e de deputados federais. Neste ano, contudo, os problemas se acirraram. No início de março, com o apoio da base aliada, o plenário do Senado vetou a recondução de Bernardo Figueiredo para o cargo de diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
O resultado foi considerado a primeira derrota da presidente no Senado, visto que Figueiredo era considerado uma pessoa da confiança de Dilma. No dia seguinte, o PMDB, maior partido aliado do governo federal no Congresso, divulgou manifesto com várias reclamações sobre o Palácio do Planalto, que incluíam queixas sobre a falta de diálogo da presidente, passando pela nomeação de cargos e chegando a liberação de recursos.



