
Bombas de efeito moral, jatos de spray de pimenta e disparos de armas de choque foram usados ontem no Rio de Janeiro para dispersar cerca de 500 manifestantes que se reuniram em frente ao Clube Militar, no centro, para protestar contra evento em homenagem ao golpe militar de 1964.
Militares da reserva que chegavam para o encontro eram recebidos aos gritos de "assassino" e "torturador" pelos manifestantes, contidos por um cordão de isolamento formado por policiais. Ovos foram arremessados contra o portão do clube. Alguns militares revidaram fazendo gestos obscenos para os manifestantes. Um homem chegou a sair do clube e chutou alguns manifestantes.
Na calçada, velas e tinta vermelha foram espalhadas para lembrar os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar (1964-1985).
Dentro do clube, cerca de 300 pessoas participavam do painel "1964 - A Verdade". Durante duas horas, defenderam o golpe militar e não fizeram nenhuma referência à manifestação do lado de fora.
Apenas no fim do evento, o vice-presidente do clube, Clóvis Bandeira, criticou a postura dos manifestantes. "Vejo com tristeza uma ação dessas. Um monte de gente que quer proibir que outras façam reunião só porque têm pensamento diferente deles. Curioso, não?", disse.
Na saída dos militares, houve novos confrontos. Quem deixava o prédio era seguido por manifestantes. Seguranças do clube acompanhavam convidados até a estação do metrô, em frente.
A prisão de um manifestante, que teria revidado a um tapa dado por um militar, fez com que a confusão tomasse a avenida Rio Branco, uma das principais do centro do Rio. A via foi fechada pelos manifestantes e a polícia reagiu com bombas de efeito moral, spray de pimenta e aparelhos de choque.
Atingida por uma bomba de efeito moral, a socióloga Mira Caetano desmaiou e teve ferimentos no seio, barriga e perna. "Fomos protestar para evitar a prisão [do manifestante] e a polícia começou a disparar", disse.
Apesar da presença de bandeiras do PCB e PSB, a maior parte dos presentes ficou sabendo do protesto através das redes sociais, caso de Ana Maria de Holanda Cavalcanti, 62. "Vi o chamado no Facebook. A ditadura não pode ser comemorada. É como se os alemães comemorassem o nazismo", disse.
A estudante Clara Martins Rodrigues, 18, foi ao Clube Militar para participar da palestra a convite de uma professora da faculdade. Ao chegar, descobriu que se tratava de uma comemoração do golpe militar e decidiu não entrar.



