
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, justificou ontem a visita do presidente Lula à Guiné Equatorial, comandada pelo ditador Obiang Nguema Mbasogo, há 31 anos no poder, afirmando que "o exemplo tem muito mais força do que a pregação moralista".Amorim, ao ser perguntado como o Brasil se sentia fazendo negócios com um país cujo presidente é considerado um dos mais corruptos do mundo ele tem uma fortuna pessoal avaliada em US$ 600 milhões minimizou o fato: "Negócios são negócios. Acho que a gente tem de trabalhar. Nós estamos em um continente cujos países ficaram independentes, acho que há 30 anos. Isso é uma evolução que tem a ver com o social, com o político", afirmou o chanceler brasileiro.
"Tem empresa com mais de US$ 1 bilhão investidos [na Guiné Equatorial], não é pouca coisa. Nós não podemos jogar isso fora, nenhum país do mundo joga isso fora, nem Estados Unidos, nem Alemanha, nem França", afirmou.
Uma missão empresarial brasileira com 17 representantes participou de um seminário conjunto com empresários locais. Os brasileiros estão em busca de negócios nas áreas de infraestrutura, implementos agrícolas, energia (a Guiné Equatorial tem grandes reservas de petróleo) e na expansão do padrão da tevê digital brasileira. O volume de negócios entre os dois países é de US$ 302 milhões, com um déficit para o Brasil de US$ 211 milhões.
Lula chegou domingo ao país do centro-oeste africano e foi recebido pelo ditador na porta do avião. Ontem pela manhã, ele se reuniu com Mbasogo no suntuoso palácio presidencial, no qual o chão e paredes de mármore e madeira maciça e lustres de cristal contrastam com a pobreza do resto do país.
O ditador é acusado por organizações internacionais de violações contra direitos humanos, de perseguir e ter matado opositores.
Entre os acordos assinados hoje entre Brasil e Guiné Equatorial há um que prevê a cooperação entre os dois países na área de defesa, incluindo a possibilidade de aquisição de produtos e serviços nacionais de defesa pelo governo de Guiné Equatorial e promover ações conjuntas de treinamento e instrução militar.
Na Guiné Equatorial, a família Mbasogo comanda não apenas o Estado, mas a economia. O hotel da rede Sofitel em que Lula passou a última noite pertence a Mbasogo. No pequeno país, não há divisão entre as finanças do Estado e do clã. Os recursos das exploradoras de petróleo, que começaram a chegar ao país nos anos 1990, não resolveram o problema da miséria. Estima-se que 60% da população vive na pobreza.
Lei de silêncio
Na entrevista coletiva marcada para a manhã de ontem, o cerimonial do governo local não permitiu perguntas dos jornalistas. Todos as cadeiras da sala onde o evento ocorreu, num espaçoso palácio de mármore e lustres de cristal, foram ocupadas por diplomatas, assessores e seguranças.
De Malabo, o presidente Lula foi para Nairobi, no Quênia, onde desembarcou por volta de 22h15 (16h15 em Brasília). Hoje, ele participa do encerramento do seminário empresarial Brasil-Quênia.




