Um dos maiores expoentes de uma geração de cientistas comprometida com o desenvolvimento científico e tecnológico, mas também com aspectos sociais e políticos do país. Dessa forma, amigos, colegas de profissão e ex-alunos descreveram José Leite Lopes, um dos maiores nomes da ciência brasileira e um físico internacionalmente reconhecido. Fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Física, o pernambucano Leite Lopes foi uma das figuras centrais da ciência brasileira nas últimas cinco décadas.
Não só, como apontaram os colegas, por suas pioneiras contribuições na física e por sua participação determinante na estruturação de um sistema de ciência e tecnologia do país, mas também por sua luta política contra o regime militar o que acabou levando-o ao exílio.
Ele é um dos ícones da ciência brasileira nos últimos 50 anos afirmou o presidente do CBPF, Ricardo Galvão. Sobretudo no estabelecimento de uma cultura científica no país.
O secretário do Ministério da Ciência e Tecnologia, Luis Fernandes, faz coro:
Ele consolidou a visão de que a pesquisa deveria estar no coração da atividade científica no país.
Galvão destacou ainda o caráter humanista de Leite Lopes que, segundo ele, era um dos últimos representantes de um tipo de cientista cada vez mais raro hoje em dia, em que a especialização reina absoluta.
Ele sempre teve uma preocupação muito forte com a desigualdade social no Brasil. Ele falava sempre comigo sobre a dificuldade do acesso das classes mais pobres à ciência. Ele achava que isso era absolutamente necessário ao país disse Galvão. E era um homem de cultura ampla, que pintava, gostava muito de música.
Leite Lopes teve também uma atuação importante na criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Crítico severo da ditadura militar, Leite Lopes foi cassado pelo AI-5 em 1969. Nos anos de exílio, morou nos Estados Unidos e, posteriormente, na Europa, onde deu aulas.
Quando era estudante, eu e meus colegas seguíamos com muito interesse suas manifestações em prol da democracia e do desenvolvimento científico e tecnológico do país relembrou o físico Luis Davidovich. Ele denunciava o sistema autoritário. Para nós, era um paradigma de ação, mostrava que a boa ciência e o bom cientista devem estar preocupados também com a justiça social.
O físico Luis Pinguelli Rosa, coordenador do Programa de Planejamento energético da Coppe e ex-aluno de Leite Lopes, destacou a contribuição do físico para a ciência nacional e internacional.
Ele foi pioneiro na proposta de unificação das forças nucleares fracas com as forças eletromagnéticas, uma solução até hoje consensual na física.
O trabalho mais importante de Leite Lopes para a Física, ao qual se refere Pinguelli, data de 1958. Ele propôs, pela primeira vez, a existência de uma terceira partícula componente da chamada força fraca (uma das duas forças que atuam no interior do núcleo atômico).
De acordo com Leite Lopes, além das partículas W+ e W-, atuaria ainda a partícula Z0 sem carga elétrica. A existência dessa terceira partícula acabou sendo confirmada cerca de duas décadas mais tarde, contribuindo para a maior compreensão de diversos tipos de radioatividade.
Leite Lopes passou mal pouco antes do Natal e foi internado no Hospital Samaritano, no Rio. Ao ser submetido a uma endoscopia, ele entrou em coma e foi transferido para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital. Morreu ontem de manhã, aos 87 anos."Para nós, ele era um paradigma de ação. Mostrava que a boa ciência e o bom cientista devem estar preocupados também com a justiça social."



