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Cobertores e comícios

  • Porrogerio waldrigues galindo
  • 01/07/2015 03:00

Antes que alguém use o argumento óbvio contra o texto que se segue: não se trata de querer que o governo deixe de arrecadar cobertores para os mais pobres. O frio nessa época do ano é intenso, as pessoas precisam se proteger e é ótimo que as instituições ajudem no que podem. Mas mais uma vez a entrega dos cobertores arrecadados pelo Provopar estadual é feita em um esquema que mais parece comício do que assistência social.

A direção do Provopar, que arrecada cobertores e agasalhos, anda percorrendo o estado para dar dois cobertores a cada família cadastrada. A meta para esse ano é se aproximar de 200 mil doações. O problema é que antes de receberem qualquer coisa, os pobres precisam encarar o discurso dos políticos regionais. Só depois da falação as entregas são liberadas.

Basta entrar nas notícias divulgadas pelo próprio Provopar. Em cada município, além de Carlise Kwiatowski, presidente do Provopar e braço-direito da primeira-dama Fernanda Richa, há sempre prefeitos, vereadores e deputados, ou seus representantes. Em uma série de entregas no norte do estado, por exemplo, o deputado Cobra Repórter (PSC), de Rolândia, foi quem esteve ao lado de Carlise. Há fotos dele discursando e sorrindo em Rolândia, Tamarana, Cambé, Londrina.

No Norte Pioneiro, o líder do governo, Luiz Claudio Romanelli (PMDB) dividiu o microfone com Tião Medeiros (PTB). Na região metropolitana de Curitiba, o deputado federal Luciano Ducci (PSB) discursou elogiando o trabalho do governo de Beto Richa (PSDB),seu padrinho político. Outros deputados não aparecem nas fotos, mas os textos do Provopar deixam claro que Marcio Nunes (PSC), Rubens Bueno (PPS) e Maria Victoria (PP), entre outros, mandam seus representantes e são mencionados nos eventos.

As fotos mais reveladoras sobre a intenção política, porém, são as que mostram a plateia. Em galpões, ginásios e escolas, centenas de pessoas esperam pacientemente enquanto ouvem a parolagem dos políticos. Só querem o cobertor. Só querem não passar frio. Mas a regra do jogo ordena que eles tenham de primeiro saber quem são seus benfeitores.

A entrega de cobertores já rendeu mais do que críticas a Fernanda Richa. Rendeu-lhe uma multa eleitoral em 2010, quando ela fez campanha antecipada para o marido, que disputava o governo do estado, em um comício no Parolin. Como a multa não é séria (R$ 5 mil) e ainda nem precisou ser paga, tudo continua como era.

Recentemente, outra denúncia mais grave apareceu: a de que fiscais da Receita estariam sendo pressionados a cumprir metas de arrecadação de cobertores. Uma gravação revelada pela Gazeta do Povo mostra que os auditores iam a empresas pedir doações, numa evidente deturpação de suas funções.

O ciclo começa torto, com empresários recebendo pedidos indevidos, e termina tortíssimo, com os pobres recebendo o produto em eventos em que a intenção eleitoral mal é disfarçada.

A primeira-dama disse em entrevista à Rádio Banda B que as denúncias sobre os auditores são falsas e que, ao saber que estavam dizendo aquilo de seu trabalho, quase desistiu de continuar. “Depois dessa denúncia, a minha vontade era não voltar mais pro trabalho, porque perdi a vontade de fazer o bem”, disse.

Repita-se. Ninguém quer que os cobertores deixem de ser repassados a quem precisa. O que precisa ser feito é, primeiro, que tudo seja feito dentro da lei. Segundo, poderia-se seguir aquele velho preceito de que, quando se trata de fazer o bem, nem a mão direita deve saber o que a esquerda faz. Senão, deixa de parecer assistência social. E passa a parecer mera campanha política.

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