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O erro do “fim da política”

A crise política no Brasil não é nada desprezível. É normal que isso cause descrença na política. Não é de estranhar que surja o discurso da desconfiança total da política. Mas há muitas advertências a serem feitas.

“Uma empresa”

O discurso mais comum contra a política “convencional” é o de que é preciso gerir o Estado como uma empresa – ou pelo menos se aproximar disso. É algo que não faz sentido, pelo menos se for levado a sério.

Primeiro, os objetivos são diferentes. Uma empresa busca o lucro. O Estado, o bem-estar da comunidade. Depois: política é embate. Grupos diferentes querem coisas diferentes. Com recursos escassos, é preciso tomar a decisão política de escolher o que fazer. Ter um CEO tomando esse tipo de decisão discricionariamente não é exatamente democrático.

É possível entender essa afirmação em versão “light”. Ou seja: é preciso gastar o dinheiro do Estado pensando melhor em como atingir o objetivo desejado, sem desperdício. Nesse caso, não é preciso evocar a empresa. Basta dizer: gerir bem.

O mercado

O discurso de que “a empresa” é mais eficiente do que o governo nem sempre procede, aliás. A corrupção grassa nas empresas, assim como a fraude. Lembre, só para ficar em alguns casos, a história da Enron. Ou as contas suíças do HSBC.

Ou os casos em que a “boa gestão” em nome do lucro levou a catástrofes financeiras e ecológicas, como o derramamento de óleo da BP, o caso Exxon-Valdez e tantos outros. Sem falar na empresa americana que ganhou os jornais por aumentar em 5.000% o preço de um medicamento para toxoplasmose.

Mesmo no caso atual da política brasileira, as grandes empresas, principalmente as empreiteiras, são tão culpadas de corrupção quanto o governo.

Fim do “carreirismo”

Há quem ache que um dos problemas da política é o fato de os políticos fazerem carreira. Max Weber, o grande teórico da política moderna, já devia ser argumento suficiente para combater essa falácia.

Os cientistas políticos que acompanham o trabalho legislativo, além disso, afirmam que políticos nos primeiros mandatos costumam não saber exatamente os caminhos para fazer as coisas que mais queremos deles: aprovar propostas, discutir projetos, barrar ideias ruins etc. Conquista-se isso com o tempo.

Se querem gerenciamento empresarial, a ideia de impedir que as pessoas sigam no mandato soa como ficar transferindo os funcionários assim que eles ganham alguma experiência.

Profissionalização

Outro item desse discurso contrário à política diz que é preciso fazer a gestão interna do partido evitando a politização. Assim, gente com mandato ou candidatos não poderiam presidir o diretório.

No limite, isso quer dizer que políticos são incapazes de gerir um partido político. Se não for isso, diz-se que é preciso alguém “imparcial”, fora do jogo, para arbitrar entre os candidatos. E se houver dois candidatos postulando a mesma vaga (para disputar uma prefeitura, por exemplo). Como decidir? Por votação interna? Mas isso é fazer mais política do que fazem os atuais partidos, não menos.

Sem coalizões?

Uma das críticas que se faz ao modelo da política atual brasileira é ao fato de o presidente de plantão ser levado a fazer coalizões grandes para governar. Como reagir a isso? Com purismo? Sem se coligar? Sem fazer negociações?

Mas o poder não vem só do presidente. O Legislativo é igualmente legítimo. Evitar negociatas, sim. Evitar negociações? Elas não são escusas em si. O último presidente que as evitou nem era particularmente probo nem conseguiu se manter no poder. Não há nada de novo nisso.

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