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Existe um velho ditado político sobre o papel dos vice-presidentes: há pouco que eles possam fazer para ajudar o titular, mas muito no que atrapalhar.

Quando o PMDB decidiu indicar Michel Temer para compor a chapa da petista Dilma Rousseff, em maio de 2010, o escolhido foi questionado imediatamente sobre como exerceria a função. Se pretendia se comportar como o vice de FHC, Marco Maciel (DEM-PE), que aparecia pouco e quase não manifestava opinião. Ou como o vice de Lula, José Alencar (PRB-MG), que dava pitacos aos montes sobre a condução da política econômica.

Em todas as jogadas políticas dos últimos cinco anos, Dilma e o PT cometeram um erro crasso de avaliação: menosprezaram Temer

Temer não titubeou. “Serei vice nos limites da Constituição. Quando ocupo um cargo, cumpro a tarefa constitucional. Serei extremamente discreto, como convém”, disse.

Ninguém esperava muito mais do que isso. Temer era mais importante para os petistas pelo tempo de televisão do que pela contribuição administrativa ou política que tinha para dar. No fundo, o eleitorado só se tocou que ele existia no dia da posse, quando sua esposa, Marcela Temer, roubou a cena.

Começou o primeiro mandato, Marcela sumiu do mapa, assim como Temer. O PMDB, partido presidido por ele, passou a ser tratado pelo PT como um fardo. Cabia ao vice reduzir o peso dessa mala e nada muito além disso.

Entre 2011 e 2014, Temer entregou o que havia prometido: discrição e uma certa estabilidade dentro do PMDB. Veio a campanha pela reeleição e uma ala considerável do partido resolveu mudar de ideia sobre a aliança com o PT. Do Rio de Janeiro, terra do então líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha, irradiava um novo movimento de aproximação ao PSDB.

Os peemedebistas saíram da eleição do ano passado completamente rachados. Cunha farejou a oportunidade e, a contragosto de Dilma Rousseff, chegou à presidência da Câmara, em fevereiro de 2015. No Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) seguiu posteriormente a onda de “independência” e passou a complicar a vida do Palácio do Planalto.

Isolada pelo Congresso, a alternativa de Dilma foi catapultar Temer ao posto de salvador da pátria. Deu ao vice o papel de articulador político. Como a presidente detesta, contudo, qualquer tipo de compartilhamento de poder, acabou permitindo que ele fosse minado pelos petistas – em especial, pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Em todas as jogadas políticas dos últimos cinco anos, Dilma e o PT cometeram um erro crasso de avaliação: menosprezaram Temer. Ele pode ser ruim de voto, não conseguir controlar o próprio partido, mas nem de longe é um zero à esquerda. O vice é um gênio da paciência, que antes de desembarcar no Palácio Jaburu construiu uma trajetória política de quatro décadas baseada justamente na espera do momento certo.

Assim presidiu a Câmara dos Deputados por três mandatos. Assim se posicionou como a melhor alternativa para Dilma em 2010. E assim começa a se colocar como alternativa ao caos político e econômico que assola Brasília neste ano.

Dois dias depois de a Operação Lava Jato prender o ex-ministro José Dirceu e levar a imagem do PT para algum lugar abaixo do volume morto, ele deu uma rara declaração polêmica ao dizer que o país precisava de “alguém” para reunificá-lo. Na última quinta-feira (3), três dias após o governo enviar ao Congresso uma proposta orçamentária com um déficit de R$ 30,5 bilhões, afirmou que será “difícil” para Dilma resistir a mais três anos de governo com os atuais níveis de popularidade.

Na primeira vez, Temer fez questão de se explicar com Dilma e dizer que não era bem aquilo que queria dizer. Na segunda, demorou três dias para emitir uma nota refutando o rótulo de golpista e que trabalha junto com a presidente. Só não enxerga quem não quer: mesmo sem alterar o tom de voz, o vice já deu o seu grito de independência.

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