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Seleção

Cresce debate sobre cotas raciais em concursos públicos

Governo federal faz estudos sobre projeto de lei para reserva de vagas. No Paraná, regra existe desde 2003

Assembleia Legislativa do Paraná aprovou em 2003 lei que destina 10% das vagas de concursos estaduais para afrodescendentes | Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
Assembleia Legislativa do Paraná aprovou em 2003 lei que destina 10% das vagas de concursos estaduais para afrodescendentes (Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo)
Marta Suplicy:

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Marta Suplicy:

Se na educação o sistema de cotas raciais já é realidade há alguns anos, no serviço público o assunto ainda é controverso. O Paraná é um dos poucos estados da federação que destina uma parcela das vagas ofertadas em concursos públicos para afrodescendentes. No âmbito do governo federal, a medida ainda não saiu do papel, mesmo estando prevista no Estatuto da Igualdade Racial. Enquanto um projeto de lei nesse sentido é estudado pela Presidência da República, a ideia divide opiniões. De um lado, aqueles que veem as cotas como mecanismo de inclusão social e, de outro, os que consideram a proposta uma forma de privilegiar uma minoria.

Em 2003, a Assembleia Legislativa aprovou e o governo estadual sancionou uma lei através da qual 10% das vagas disponibilizadas em concursos públicos do Paraná seriam reservadas para candidatos afrodescendentes. A proposta foi apresentada pelo então governador e hoje senador Roberto Requião (PMDB). Além do Paraná, os estados do Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul regulamentaram a reserva de vagas.

Proposta similar vem sendo estudada pela presidente Dilma Rousseff (PT). Desde o ano passado, a Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial do governo federal vem negociando internamente a oficialização das cotas para afrodescendentes no serviço público federal. Cogitou-se a possibilidade de ser encaminhado ao Congresso Nacional um projeto de lei reservando 30% das vagas ofertadas em concursos, mas por enquanto a ideia não avançou. De acordo com dados da própria secretaria, 23% dos servidores federais se autodenominam negros.

Assim como no ensino superior, o estabelecimento das cotas raciais no serviço público está longe de ser consenso. Para Nelson Inocêncio coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que há cerca de um ano considerou constitucional a adoção de cotas pelas universidades públicas também pode ser válida para o funcionalismo. "Os últimos governos reconheceram que há de se fazer justiça com as minorias. E isso se faz com políticas públicas, por força da lei. Não dá para ficar esperando que a população faça por vontade própria", afirma.

Apesar de defender o sistema de cotas na educação, o advogado constitucionalista Clemerson Clève, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), acredita que a medida não faz sentido em concursos públicos. "Quando se estabelecem cotas na universidade, entende-se que ali está o ponto de partida para a igualdade. Manter essa divisão depois disso é uma demonstração de que as cotas universitárias não estão funcionando", avalia.

CulturaJustiça suspende seleção exclusiva para afrodescendentes

Não é apenas no serviço público que a seleção por critérios raciais vem causando controvérsia. No final do ano passado, o Ministério da Cultura (MinC) lançou um concurso destinado a selecionar projetos em diversas áreas, mas exclusivos para artistas e produtores afrodescendentes. No último dia 21, uma decisão do juiz federal José Carlos do Vale Madeira, da 5ª Vara Federal do Maranhão, suspendeu o concurso, atendendo a uma ação popular. A justificativa é de que a seleção viola princípios da Constituição Federal como a isonomia e a razoabilidade.

Os editais do Ministério da Cultura foram lançados em outubro do ano passado para selecionar projetos nas áreas de cinema, literatura, pesquisa de bibliotecas, artes visuais, circo, música, dança e teatro. Seriam distribuídos R$ 9 milhões em prêmios e, segundo o ministério, estavam entre os objetivos "formar novos escritores, elevar o número de pesquisadores negros e de publicações de autores negros, incentivar pontos de leitura de cultura negra e fazer com que artistas e produtores negros ocupem palcos, teatros, ruas, escolas e galerias de arte de todo o país".

Entretanto, uma ação popular apresentada pelo procurador Pedro Leonel Pinto de Carvalho pediu a impugnação dos editais, sob alegação de que eles não poderiam excluir as demais etnias e abriam um espectro de desigualdade racial. O juiz José Carlos Madeira atendeu ao pedido e destacou que os parâmetros desses concursos não se confundem com os sistemas de cotas, "uma vez que os editais do MinC reduzem drasticamente o campo de participação das diversas etnias ou grupos que integram a sociedade brasileira". A ministra Marta Suplicy classificou a ação como "racista" e informou que o governo está recorrendo da decisão.

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