
Assim que foi confirmada como ministra da Secretaria de Políticas das Mulheres, a socióloga Eleonora Menicucci de Oliveira fez questão de ressaltar que foi convidada por causa de seu currículo, e não pela amizade com a presidente Dilma Rousseff, iniciada nos tempos de resistência à ditadura. Mas, justamente por se conhecerem há tempos, é possível que a presidente tenha se impressionado com a militância incansável de Eleonora pelas causas feministas, que começou há mais de 40 anos.
Além de serem companheiras na resistência à ditadura militar em Belo Horizonte, Eleonora e Dilma foram encarceradas pelo regime praticamente na mesma época no Presídio Tiradentes, em São Paulo. A presidente foi presa em 1970, e a socióloga, em 1971. As duas saíram no fim de 1973.
"Ser transferida para a Torre, no presídio Tiradentes, significava adentrar um espaço de liberdade que todos nós, mulheres e homens, desejávamos, depois de termos passado pelos horrores da tortura", conta Eleonora em um capítulo do livro Tiradentes, um presídio da ditadura Memórias de presos políticos. Entre as curiosidades do período, Eleonora relatava que a colega Dilma era ruim de fogão. "A espera do meu dia na cozinha, no entanto, representava sempre uma angústia enorme: nem minha companheira de dupla, a Celeste (...), nem eu gostávamos de cozinhar. Tampouco sabíamos fazê-lo. Portanto, coitadas das meninas que iam comer nosso menu. Só não éramos piores do que a famosa dupla Dilma e Cida Costa."
Além de relatar o dia a dia da detenção, o texto revela que Eleonora já era preocupada com a questão feminista há tempos. "Acompanhavam-me em todas as celas por onde morei fotos de minha filha Maria e um abajur lilás. Será que é porque o lilás é a cor que simboliza o feminismo?"
Eleonora tinha uma filha pequena quando foi presa. "Era dia 11 de julho de 1971, uma manhã fria de inverno, quando 18 homens armados de metralhadora, em nome do Exército brasileiro, invadiram uma casa geminada localizada no bairro dos Jardins, na cidade de São Paulo. Buscavam prender uma jovem de 22 anos com sua filha de 1 ano e 10 meses acusada de agitadora, guerrilheira e inimiga de seu próprio país."
No mesmo dia prenderam também o então marido de Eleonora, Ricardo Prata Soares, de 23 anos à época, que estava no enterro da mãe, em Uberaba, em Minas Gerais.
Ele também foi para o Presídio Tiradentes, e assim Eleonora conseguiu desfrutar da companhia dele, nas "visitas de namoro nas terças-feiras". Os encontros, conta ela, eram precedidos de "verdadeiras sessões de beleza." "No frio, descíamos enroladas em um poncho de tricô, feito por nós, que nos ajudava a despistar os guardas dos carinhos e afetos. Nessas visitas, que duravam uma hora, conversávamos sobre as nossas crises conjugais, que, mesmo na cadeia, explodiam. Falávamos sobre o futuro e sobre a Maria, que morava com minha mãe em Belo Horizonte, compartilhávamos a dor da saudade e a vontade de vê-la."
Quando voltavam à ala feminina também chamada de "Torre das Donzelas" era uma festa, conta Eleonora. Repassavam as notícias do lado de fora. Aos sábados, como ela quase não recebia visitas de familiares (por morarem longe), ela podia ir ao pátio ficar com o marido, onde também ficava sabendo das notícias do "mundão".
Eleonora também compartilhava alguns trechos das cartas que recebia da filha pequena que não sabia escrever. A avó anotava tudo, respeitando o modo e os erros da criança. Nonora, apelido da socióloga, virava "Nonôla" para Maria. A filha Maria foi uma das depoentes de um documentário sobre a época, que contou ainda com outros 15 filhos de presos políticos.
Serviço: Tiradentes, um presídio da ditadura Memórias de presos políticos. Organização: Alípio Freire, Izaías Almada e J. A. de Granville Ponce. Editora Scipione, 1997. O livro serviu de referência para a Gazeta do Povo publicar a série "Passos de Dilma", que conta a trajetória da presidente.






