Pela primeira vez na TV, um documentário levou para a sala de estar, em rede nacional, depoimentos de crianças e adolescentes envolvidos no tráfico de drogas. Exibido ontem à noite no "Fantástico", "Falcão Meninos do tráfico" fez revelações impactantes sobre a entrada de "soldados" cada vez mais jovens no crime em vários pontos do país. Os menores falaram abertamente sobre consumo de drogas, corrupção policial e assassinato de delatores. O filme de 58 minutos foi produzido pelo rapper MV Bill e pelo coordenador da Central Única das Favelas (Cufa), Celso Athayde.
A dupla captou 217 horas de imagens entre 1998 e 2003 em comunidades de vários estados, que não são identificados. Dos 16 personagens principais, que aparecem com os rostos borrados digitalmente ou escondidos por uma tarja preta, 15 morreram e tiveram os enterros registrados pela equipe. Segundo Athayde, o único sobrevivente está preso.
Do alto de uma favela, um menor apresenta seu material de trabalho: "Isso aqui é o radiocomunicador para avisar os amigo ". Na cena seguinte, outro jovem abre a mochila. Em vez de livros, carrega papelotes de cocaína com a imagem do terrorista Osama Bin Laden. "Essa é a carga que movimenta a firma", diz. Minutos depois, cinco jovens desfazem um tijolo de maconha prensada. Uma voz infantil explica a divisão de trabalho: "Tem o que corta, o que desfaz a maconha e o que pesa. Daqui vai pra mão do vapor".
Os falcões nome dado aos jovens encarregados de vigiar a favela e avisar a chegada de rivais e da polícia mostram consciência sobre os perigos de trabalhar para o tráfico. Num dos depoimentos mais impressionantes, um garoto de aproximadamente 10 anos fala sobre a falta de perspectivas e a rotatividade dos jovens no crime: "Se eu morrer, nasce um outro que nem eu, pior ou melhor. Se eu morrer, vou descansar, é muito esculacho nessa vida".
Corrupção policial
O pagamento de propina a policiais é relatado com detalhes. Um dos jovens, com sotaque carioca, explica o acordo na comunidade em que mora: "De dia tem polícia na favela. De noite é arrego (suborno). Se entrar, leva bala". Depois de relatar uma negociação para escapar da cadeia, um garoto arrisca uma teoria para a ineficácia do combate à corrupção policial: "Se o tráfico acabar, eles só vão ter o salário deles, vão ficar massacrados. Então, não vai acabar tão cedo". A truculência das operações surge na fala de outro jovem: "Com 10 anos, levei um tapa na cara. Até hoje guardo isso no coração".
Sem apresentar soluções, o filme busca nos depoimentos as causas para a entrada dos jovens no crime. Além da sedução exercida pelas armas um falcão diz que seu melhor amigo é um fuzil AK-47 os menores citam problemas familiares para justificar a opção pelo tráfico. Quase todos reclamam de maus-tratos e abandono em casa. "Meu pai só chegava para bater na gente, estou com 17 anos e nunca tive um aniversário", diz um deles.
O sofrimento das famílias dos jovens traficantes aparece no depoimento da mãe de um rapaz morto em acerto de contas na periferia de uma capital nordestina. Durante a entrevista, chorando, ela abriu pela primeira vez o armário do filho, que investia o dinheiro das drogas em roupas da moda. "A bermuda que ele mais gostava de usar era essa", conta a mulher, que ouviu de casa os dois tiros que mataram o filho. O boné furado pela bala que atingiu a cabeça do garoto, morto enquanto andava de bicicleta, foi guardado pelo melhor amigo, um menino de cerca de 10 anos. Sua explicação para o crime mostra a banalização da violência entre os jovens assediados pelo tráfico: "Ele pegava uns caras de outro setor, batia, batia, mas não matava. Por isso que eu falo: quando pegar, tem que conferir".
A promessa de deixar a vida no crime é quase onipresente nos depoimentos. Um dos personagens, de 17 anos, diz que sonha em se tornar palhaço e planeja entrar numa escola de circo. Um ano depois, a equipe o reencontra no dia do seu aniversário. Ele foi promovido na quadrilha e continua trabalhando para o tráfico.
O filme também aborda o uso de drogas entre os jovens recrutados pelos bandidos. Um adolescente explica que a cocaína o ajuda a ficar acordado durante o plantão noturno sobre uma laje da favela, mas nega ter se tornado dependente. "Sou usuário, tenho que usar para não dormir. Mas não sou viciado, não. Se eu quiser, eu paro", garante. Além de cocaína, o documentário registra o uso de crack, droga que, segundo policiais, ganhou força nos morros cariocas nos últimos anos.
Quase todas as imagens foram registradas à noite na câmera digital da dupla. Segundo Athayde, a maior parte das entrevistas ocorreu durante turnês de Bill, que se apresenta em comunidades de todo o país.



