Líderes religiosos que atuaram de forma mais enfática nos últimos meses, aconselhando seus fiéis a não votarem em Dilma Rousseff (PT), se mostraram satisfeitos com a realização do segundo turno da eleição presidencial. "Depois do meu artigo, muita gente acordou", disse à Gazeta do Povo o bispo de Guarulhos (SP), dom Luiz Gonzaga Bergonzini. Em julho, dom Luiz escreveu um texto pedindo aos católicos que não votassem em Dilma por causa do apoio do partido à legalização do aborto e a outros itens contrários à doutrina católica.
Outro fenômeno da internet foi o vídeo do pastor Paschoal Piragine Junior, da Primeira Igreja Batista de Curitiba, que até ontem teve quase 2,9 milhões de acessos no YouTube. "É difícil medir a importância dos líderes cristãos no resultado. Houve uma série de fatores, os escândalos da quebra de sigilo e da Casa Civil, que também tiraram votos da candidata", avalia Piragine. "Não digo que foi determinante para levar ao segundo turno, mas houve, sim, uma influência", afirma dom Luiz.
O bispo de Guarulhos prometeu manter o tom nas próximas semanas. "Vou seguir firme, pois estou agindo com convicção. Quem vive mudando de ideia é a Dilma, que defendeu o aborto até ano passado e hoje diz outra coisa", diz. Piragine identifica, na mudança do discurso da candidata, um sinal de que o tema se tornou relevante. "No começo da campanha ela falava em questão de saúde pública. Na reta final, Dilma evitava até mesmo esse discurso", descreve o pastor batista.
Redes sociais
Piragine disse não ter ideia da repercussão que o vídeo teria. "Minha intenção era apenas alertar os fiéis da igreja onde sou pastor, mas ninguém controla as redes sociais", conta. Ele compara a situação a uma centelha que encontrou uma floresta seca. "O vídeo só ganhou essas dimensões porque há muitos outros que compartilham dos mesmos valores e também estão preocupados. Embora eu tenha falado explicitamente do PT, não se trata de combater este ou aquele partido, mas de defender valores", esclarece.
Também foi por meio das redes sociais que o artigo de dom Luiz se popularizou, e nas últimas semanas da campanha vários outros bispos gravaram vídeos para o YouTube. Prelados paulistas, por exemplo, leram o "Apelo a todos os brasileiros e brasileiras", escrito pela Comissão de Defesa da Vida da Regional Sul 1 da CNBB, que compreende o estado de São Paulo. O texto descreve iniciativas do PT na direção da legalização do aborto, como o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) e a punição a dois deputados pró-vida. O presidente da comissão, dom José Benedito Simão, bispo de Assis (SP), afirma que no segundo turno o trabalho dos bispos seguirá na mesma direção. "Esperamos inclusive que a repercussão seja ainda maior, porque em boa parte do Brasil o noticiário estará concentrado apenas nos dois candidatos à Presidência", considera.
Tanto os bispos quanto o pastor Piragine dizem que ainda é cedo para definir se a importância dos temas morais veio para ficar ou se é uma particularidade do pleito de 2010. "Vai depender muito da postura do próximo governo. Se ela for contrária aos valores cristãos, certamente continuaremos sendo enfáticos", promete dom José.



