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desenvolvimento

A desconexão das meninas Otaviano

Maria Helena, Vanusa e Sirlei vivem com o que há de pior na Região Metropolitana de Curitiba, como violência, drogas e falta de creche

A doméstica Maria Helena Otaviano (59) e as filhas Vanusa (33) e Sirlei (32) moram na Vila Naime, uma comunidade do Jardim Itália em São José dos Pinhais. Na foto, Matheus Marcos (14) está ao lado da avó e junto com Stefanie (14), Jennifer Thais (12) e Derek (2), filhos de Sirlei | Brunno Covello / Gazeta do Povo
A doméstica Maria Helena Otaviano (59) e as filhas Vanusa (33) e Sirlei (32) moram na Vila Naime, uma comunidade do Jardim Itália em São José dos Pinhais. Na foto, Matheus Marcos (14) está ao lado da avó e junto com Stefanie (14), Jennifer Thais (12) e Derek (2), filhos de Sirlei (Foto: Brunno Covello / Gazeta do Povo)
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Maria Helena, Vanusa e Sirlei vivem a Região Metropolitana de Curitiba com o que ela tem de pior: violência, drogas, dificuldade de mobilidade, trânsito violento e falta de creches |

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A doméstica Maria Helena Otaviano, 59 anos, e as filhas Vanusa, 33, e Sirlei, 32, moram na Vila Naime, uma comunidade do Jardim Itália, em São José dos Pinhais, dividida pelo tráfico de drogas. A troca de tiros entre a turma de cima e a de baixo perturbam. Vanusa perdeu um filho de 4 anos em 2006 pela falta de uma lombada na rua Quirino Zagonel. Outros dois de um total de quatro filhos foram para Minas Gerais com o pai porque ela não conseguiu creche para eles aqui. Já Sirlei tem o marido viciado em crack e não deixa os três filhos na rua por medo. Para trabalhar em Curitiba, Maria Helena precisa pagar todos os dias quatro passagens e sacolejar em ônibus por mais de duas horas por dia.

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As meninas Otaviano vivem na Região Metropolitana de Curitiba com o que ela tem de pior: violência, drogas, dificuldade de mobilidade, trânsito violento e falta de creches. Compensam com trabalho e muita fé no futuro – mas aquele que elas mesmas possam construir. As dificuldades enfrentadas pelas três repetem-se com famílias de Campo Largo, Fazenda Rio Grande, Pinhais ou Colombo.

Maria Helena saiu de Umuarama há 17 anos com o marido e cinco filhos para morar perto do Hospital de Clínicas (HC), onde uma das filhas tratava o lúpus. Em 2002 ela morreu e, desde então, Matheus,14, é criado pela avó com a ajuda das tias. Maria sai de casa às 5h de segunda à sexta para limpar casas nos bairros Água Verde, Batel e Barreirinha, em Curitiba. Pela falta de integração de boa parte das linhas de ônibus, desembolsa R$ 11,70 diariamente para conseguir trabalhar. "Vou até o Guadalupe e de lá vou a pé até a [Praça] Rui Barbosa, onde pego ônibus para as casas. Na volta, a mesma coisa."

Vanusa administra uma pequena distribuidora de bebidas e gás. No ano passado, separou-se e o marido mudou-se para Minas. Os filhos mais velhos, de 18 e 15 anos, moram com ela. Os mais novos, de 10 e 4 anos, foram embora com o pai. Ela mesma faz as entregas da distribuidora e não teria como deixar os filhos pequenos sozinhos na loja enquanto estivesse fora. Foi em busca de uma creche e ouviu que por ser empresária não teria chance. "Eu não tenho R$ 400 para pagar em uma creche particular. Espero trazer meus filhos de volta no ano que vem."

Já Sirlei trabalha em uma lavanderia no bairro Ouro Fino, perto do Jardim Itália. Ela morava em uma área de invasão à beira de um córrego de esgoto na própria Vila Naime. Há um ano e meio foi realocada pela prefeitura para um conjunto habitacional há uns sete quilômetros dali, longe do trabalho e da família. "Pago o apartamento e condomínio certinho, mas passo mais tempo aqui [com a mãe] do que lá." Apenas o filho menor, de 2 anos, tem creche. As duas meninas, de 14 e 12 anos, têm ordem de sair da escola e ficar dentro de casa. "Antes elas brincavam mais na rua. Hoje não dá para soltar, tenho medo de bala perdida."

O receio não é à toa. A Polícia Civil em São José dos Pinhais indica o Jardim Itália como um dos locais mais violentos da cidade, a segunda em quantidade de homicídios na RMC, atrás apenas de Curitiba.

Direito à cidade

A RMC é a região mais rica do Paraná. Concentra 31% da população e produz 39% de toda a riqueza estadual. Também é onde há a maior proporção de empregados formais – 40% de um total de 3,4 milhões de pessoas. Pujança liderada por Curitiba, espécie de ilha cercada de desigualdade.

A diferença de oportunidades cria uma desconexão entre o direito das pessoas e a realidade, segundo o professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro. "Isso impede que o sentido de coletividade se estabeleça. É possível até fazer germinar o sentido dos direitos individuais, mas não os direitos coletivos, base do direito à cidade."

Para o professor da Uni­­versidade Federal do Paraná (UFPR) Pedro Bodê, especialista em segurança pública, a violência só diminuirá com a melhora dos serviços públicos em toda a RMC e não apenas com a presença da Polícia Militar. "Não acredito em repressão." Esse esforço deve ser integrado, na opinião da Olga Firkowski, professora de Geografia da UFPR e especialista no estudo de metrópoles. Ela lembra, porém, que a legislação não prevê um órgão metropolitano para administrar a região.

Luiz Goularte Alves, prefeito de Pinhais e presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Curitiba (Assomec), diz que a Comec – órgão do governo estadual para gerir a RMC – não dá conta do trabalho. "A Comec está sucateada, não tem inteligência para pensar alternativas, não tem pessoas [suficientes] para planejar a médio e longo prazo." "O caminho é construir os instrumentos de comunidade política. Trata-se de construir a cidadania política ativa e um sistema de governo adequado para resolver os problemas próprios da vida metropolitana", acredita Queiroz Ribeiro.

O que a Região Metropolitana de Curitiba precisa para se desenvolver? Deixe seu comentário abaixo e participe do debate.

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