
Zeladora de uma escola de Agudos do Sul, Cerli de Fátima Cardoso, 52 anos, sente-se desamparada. Ela cuida do marido, o ex-prefeito da cidade Nabor Dorabiallo, 84, que trata um câncer. Desde maio de 2013 ela está na fila do Sistema Único de Saúde na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) para fazer uma cirurgia para "erguer" a bexiga e retirar o útero. "Se eu carrego qualquer peso, a bexiga fica exposta", detalha. O problema causa incontinência urinária e facilita o desenvolvimento de infecções. A mulher não tem ideia de quanto conseguirá voltar a ter uma vida normal.
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Cerli não conseguiu afastamento do trabalho pelo INSS, que não considerou o problema dela incapacitante. Na prefeitura, tirou licença por alguns meses, mas o prazo acabou e está sendo ameaçada de demissão pela falta ao serviço. Bateu o desespero e nesse ano tentou suicídio. "Meu filho me salvou." O SUS ainda não.
Para piorar, a omissão do sistema de saúde favorece a depressão da zeladora. "E ela não consegue internamento. Fomos ver para fazer particular, mas não temos dinheiro", diz a filha Andressa. Mesmo doente, Cerli continua cuidando do marido.
As dificuldades que a zeladora enfrenta contrastam com a infraestrutura de saúde existente na RMC. Curitiba concentra oferta de procedimentos de alta complexidade. Ao todo, 24 hospitais são credenciados para atender o SUS na região.
No ano passado, mais de 61 mil internações de média e 17 mil de alta complexidade foram realizadas para cirurgias, segundo dados da Secretaria de Saúde da capital. Ainda assim a região não dá conta e várias especialidades geram filas de espera que duram anos, como no caso de Cerli.
Questionado, Paulo Almeida, superintendente de Gestão de Sistemas de Saúde da Secretaria de Saúde do Paraná, não soube explicar o motivo de a zeladora não ter recebido o atendimento adequado e, principalmente, estar há mais de um ano esperando a cirurgia para a bexiga.
"Não temos deficiências nesse serviço", falou. Após a entrevista realizada em julho, ele pediu o nome completo de Cerli para ver o que acontecia no caso dela. Ontem, Andressa confirmou que a mãe ainda aguarda a disponibilidade do SUS.
Diminuir a distância entre o SUS e casos como a da zeladora de Agudos do Sul é o desafio para o Poder Público nos próximos anos. "Há municípios que não têm maternidade, não têm UTI neonatal ou UTI de adulto. Se precisamos desse tipo de atendimento, temos de encaminhar para fora", reclama Milton José Paizani, prefeito de Rio Negro e presidente da Associação dos Municípios da Região Suleste do Paraná (Amsulep).



