
Se há um momento em que as desavenças políticas e pessoais têm de ser deixadas de lado em prol de uma causa maior é quando um desastre natural acontece. As chuvas que atingiram o Paraná no último fim de semana deixaram 11 mortos, afetaram 580 mil pessoas e causaram cerca de R$ 1 bilhão em prejuízos para o estado números de tal dimensão que exigiriam a união de esforços entre os governos federal, estadual e municipais. Não foi o que ocorreu. Em vez disso, o que se viu foi o acirramento de antigas disputas entre esferas de poder e grupos políticos com o estado debaixo dágua. Vale lembrar que 2014 é ano eleitoral, e que todas essas brigas são apenas reflexos de questões anteriores às enchentes. O argumento de que há preconceito do governo federal com o Paraná, rebatido pelo discurso de que a administração estadual passa por uma crise de gestão, já era feito desde muito antes da chuva. As tensões entre prefeitura de Curitiba e vereadores também vinham de muito antes.
Verba de cesta básica provoca bate-boca entre PSDB e PT
Na terça-feira, o governo federal anunciou a liberação de R$ 140 mil ao Paraná para a compra de cestas básicas que foram complementados, na quarta-feira, com mais R$ 206 mil. A notícia, entretanto, não foi bem recebida por aliados do governador Beto Richa (PSDB), que criticaram um suposto preconceito da União em relação ao Paraná. Santa Catarina, também afetada pelas chuvas, teria recebido R$ 3 milhões. O governo federal informou que os R$ 140 mil correspondiam exatamente ao valor requisitado pelo Paraná e que não havia liberado R$ 3 milhões para o estado vizinho.
Deputados da base aliada de Richa enxergaram o valor, equivalente a R$ 0,33 para cada paranaense afetado pela chuva, como "uma afronta" e uma demonstração de "preconceito" do governo federal com o estado. "Não posso aceitar calado este preconceito. Que o governo federal há muito vem tratando o Paraná com perseguição, isso é um fato público. Agora, porém, chegou ao limite o requinte da crueldade para com o povo trabalhador deste meu estado", disse o presidente da Assembleia Legislativa, Valdir Rossoni (PSDB).
A assessoria da senadora Gleisi Hoffmann (PT), provável oponente de Richa nas eleições de 2014, respondeu em sua página no Facebook que considerava "lamentável" que pessoas fizessem "politicagem" com a tragédia. Mais tarde, o post foi apagado. Em entrevista à Gazeta do Povo, Gleisi preferiu não se manifestar sobre as declarações de Rossoni. "Não vou comentar isso, me recuso. Não é o momento. As coisas estão esclarecidas e a situação exige esforço para melhorar a situação do estado", disse.
Em nota oficial, o Ministério da Integração Nacional esclareceu que o valor de R$ 140 mil é referente a um pedido feito pelo próprio governo estadual para a compra de 1.700 cestas básicas outros R$ 206 mil foram requisitados e liberados na quarta-feira. O ministério informou ainda que Santa Catarina solicitou R$ 3 milhões, mas ainda não enviou a documentação exigida e que, por isso, ainda não recebeu a verba. A nota informa ainda que foram liberados R$ 4,2 milhões em recursos emergenciais ao Paraná em 2013 e 2014, e apenas R$ 1,8 milhão para Santa Catarina no mesmo período.
Prefeitura critica a cobertura jornalística da TV E-Paraná
A cobertura jornalística das enchentes em Curitiba pela TV E-Paraná, emissora do governo do estado, causou atrito entre a prefeitura de Curitiba e a administração estadual. Na terça-feira, a prefeitura emitiu uma nota oficial criticando a emissora, dizendo que os jornalistas usaram a tragédia para atacar a gestão municipal. O grupo político do atual prefeito, Gustavo Fruet (PDT), faz oposição ao governo do estado.
Segundo a assessoria de imprensa do prefeito, a emissora usou grande parte do seu tempo de cobertura com entrevistas de pessoas atingidas pela chuva que criticavam a prefeitura. A administração municipal alega que a prefeitura não foi procurada para dar sua versão. Além disso, teria sido dado um grande destaque para as visitas da secretária de Desenvolvimento Social e primeira-dama do estado, Fernanda Richa, às vítimas da chuva.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o governo do estado admitiu que houve excessos na cobertura, mas disse que isso partiu dos próprios funcionários da E-Paraná. De acordo com a administração estadual, a orientação para os jornalistas da emissora é de que a cobertura seja imparcial. O governo do estado comunicou também que a emissora deve exibir uma reportagem sobre as ações da prefeitura durante a enchente. O estado ainda informou que houve uma reunião da direção da E-Paraná com o secretário municipal de Comunicação Social, Gladimir Nascimento, para tratar do assunto e que o mal-entendido já estaria resolvido.



