O público sambou e cantou nas arquibancadas na segunda noite de desfiles da escolas paulistas. Com a platéia bem mais animada do que na primeira noite, os sambistas soltaram a voz e o batuque rolou solto. Águia de Ouro e Mancha Verde levaram o entusiasmo da platéia ao auge. A primeira, com um desfile inovador e de denúncia contra a pedofilia. A segunda, nascida da torcida do Palmeiras, só conseguiu autorização para sair no grupo de escolas especiais depois de abrir mão de concorrer ao título.
O único incidente da segunda noite nem de longe lembrou as cenas dramáticas do primeiro dia, quando Nani Moreira, rainha de bateria da Mocidade Alegre, saiu com o rosto queimado. Mas foi também uma rainha que protagonizou a cena: com o corpo pintado com notas musicais, a atriz Rosane Braga, musa da ala dos compositores da Tom Maior, viu o tapa-sexo descolar com o suor e cair no meio da avenida. Mas continuou sambando até chegar à dispersão, onde escondeu a nudez com as mãos
Quarta escola a se apresentar em São Paulo, a Águia apresentou o enredo "Não tem desculpa", e combateu a violência contra crianças, o abuso sexual e o abandono. Foram usados personagens de contos de fadas para abordar esse tema tão difícil. Bailarinas, bruxas, piratas, fadas madrinhas e duendes formaram as alas da escola, entre outros personagens. O primeiro casal de porta-bandeira e mestre-sala desfilou de Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau.
Os carros alegóricos também brilharam, um deles trazia o escritor Monteiro Lobato sobre uma Cuca gigante, personagem do Sítio do Pica Pau Amarelo. Houve ainda o carro do navio pirata que trazia um gigantesco bicho-papão na sua traseira. Outro carro ainda trouxe fotos de crianças vítimas de agressões. Para encerrar a apresentação, a escultura de uma sereia tirava uma criança das águas para lembrar a história do bebê retirado da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, depois de ser jogado na água pela própria mãe.
O empolgante desfile da Mancha Verde, penúltima escola a se apresentar na madrugada, mostrou que a escola poderia mesmo fazer parte do grupo especial de São Paulo. Com o samba-enredo "Bem aventurados sejam os perseguidos por causa da justiça dos homens... Pois é deles o Reino dos Céus", a Mancha concorre sozinha ao título de campeã do grupo das escolas esportivas. A entrada da escola na passarela fez a arquibancada ficar parecida com um estádio de futebol. Boa parte do público sacudia balões verdes e acendeu sinalizadores - apesar da entrada de fogos de artifício, de qualquer tipo, ser proibida no sambódromo.
O destaque da escola foram as imagens fortes apresentadas. O primeiro carro da Mancha, por exemplo, lembrou o massacre da Praça da Paz Celestial, na China. O segundo carro, que simboliza a guerra, manteve o cenário de destruição provocado pelo incêndio que acabou com alegorias dele na última terça-feira e ainda carregava as bandeiras do Iraque e dos Estados Unidos. A comissão de frente mostrou o flagelo de Cristo nas mãos de seus algozes, o que pode gerar protestos dos católicos conservadores. Várias alas expressavam críticas à intolerância religiosa e à escravidão. Uma delas mostrou negros sendo açoitados e acorrentados.
A Mancha enfrentou vários obstáculos para conseguir desfilar neste domingo. Na última terça-feira, dois carros alegóricos da Mancha pegaram fogo no estacionamento do sambódromo. Os integrantes e funcionários da agremiação se revezaram em turnos para reconstruir os carros. Além disso, a Mancha só desfilou porque conseguiu fazer um acordo com a Liga das Escolas de Samba do Estado de São Paulo. Pelo regulamento, as escolas esportivas deveriam desfilar na madrugada de segunda-feira, com as escolas do grupo de acesso. Era o mesmo caso da Gaviões da Fiel, da torcida do Corinthians, que desfilou no primeiro dia. A diferença é que a Gaviões conquistou na Justiça o direito de disputar o título. Mas atrasou e foi acusada de fazer merchandising no gerador de um carro alegórico. Por isso, deve perder quatro pontos, o que a deixa em desvantagem na disputa.
A Unidos do Peruche, primeira escola a se apresentar em São Paulo neste sábado, abriu os desfiles muito bem. Com o enredo "Santos Dumont-Brasil e França navegando pelos ares", a agremiação mostrou fantasias muito bonitas. O tema da Peruche concorre diretamente com o da Gaviões da Fiel, que desfilou na sexta-feira, com o tema "Nas Asas da Fascinação", abrindo os desfiles deste ano.
Apesar da riqueza das fantasias da Peruche, uma das alas mais simples se destacou com referências aos antigos bailes de carnaval e suas fantasias, de super-heróis, piratas e outros. A ala fazia parte das homenagens à velha guarda da escola, que completa 50 anos em 2006. Os carros alegóricos também chamaram bastante atenção. O abre-alas era uma representação do relógio de pulso, inventado a pedido de Dumont, com direito a engrenagens em movimento. O quarto carro trouxe o 14-Bis, com o destaque Fernando Pires representando Santos Dumont, e uma bandeira branca, pedindo a paz entre os povos.
A Tom Maior, segunda escola a se apresentar em São Paulo no sábado, levantou o público com sua homenagem ao cantor de forró Frank Aguiar e ao estado do Piauí. O samba-enredo "Em grandes sertões veredas, o elo perdido, se achou... Piauí, a terra do sol, me encantou! Com Frank Aguiar, o rei do forró, eu vou!" contagiou os foliões.
O cantor que estava muito emocionado durante a concentração da escola desfilou no último carro alegórico, em cima de um cachorro gigante - uma referência ao apelido de Aguiar, que é "Cãozinho dos Teclados". A pedido do cantor, a Tom Maior estendeu a homenagem também ao estado do Piauí, onde Aguiar nasceu. O abre-alas e os outros três carros da escola fizeram referência aos famosos sítios arqueológicos da Serra da Capivara. A ala da velha guarda da agremiação representou a cajuína, um refrigerante típico do estado.
A Acadêmicos do Tucuruvi, que se apresentou em seguida, levou muitas cores para o Anhembi para cantar a natureza e a importância da agricultura. Com o samba-enredo "Agricultura - o homem do campo, a fé em cultivar, ensinar e aprender", a agremiação manteve a animação do público.



