
Na semana em que a futura presidente Dilma Rousseff (PT) pretende discutir com o ministro da Defesa Nelson Jobim a licitação para a compra de 36 caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), um documento da diplomacia dos Estados Unidos que veio a público revela que o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, diz ter preferência pelos aviões de combate norte-americanos F-18.
Num telegrama secreto assinado em 31 de julho do ano passado pelo então embaixador norte-americano em Brasília, Clifford Sobel, ele relata ao governo dos EUA que Saito tomou a iniciativa de ter uma conversa reservada em jantar no dia anterior com o general Doug Fraser, comandante do Comando Sul da Aeronáutica. Na conversa, Saito teria dito que "não existia dúvida, do ponto de vista técnico, que o F-18 era o melhor avião". O documento, vazado pelo site WikiLeaks, foi mostrado ontem em reportagem do jornal Folha de S. Paulo.
A suposta preferência de Saito pelos caças F-18 contradiz o entendimento do Palácio do Planalto que, já demonstra forte simpatia pelas aeronaves oferecidas pela empresa francesa Dassault, que fabrica o Rafale. Em jogo está uma das maiores licitações já feitas pela Aeronáutica no valor de R$ 15 bilhões. O F-18 é fabricado pela Boeing e, juntamente com o caça Gripen NG (da sueca Saab), disputa a licitação
A manifestação de Saito, pela predileção dos F-18, foi entendida por autoridades da diplomacia americana como sendo "a mais clara expressão" de que o comandante da FAB pretenderia "recomendar o F-18". No entanto, no fim de 2009, a FAB classificou em primeiro lugar o caça Gripen, da Suécia, deixando o F-18 em segundo lugar na disputa.
A partir disso, os americanos decidiram passar a fazer um intenso lobby a favor da Boeing. A estratégia consta num outro telegrama confidencial. "Contatos brasileiros dizem não acreditar que o governo dos Estados Unidos esteja apoiando a venda [dos caças] fortemente. O esforço francês está sendo administrado diretamente pelo gabinete do presidente [Nicolas] Sarkozy" e "o envolvimento sueco" é "em nível ministerial".
O teor do telegrama revelado pelo WikiLeaks mostra ainda que o governo dos EUA "é percebido pela maioria dos brasileiros como no máximo medianamente interessado em apoiar a venda. Essa é uma desvantagem crítica em uma sociedade como a brasileira, na qual os relacionamentos pessoais servem de fundação para os negócios", dizia o documento confidencial da diplomacia americana.
Já em um telegrama secreto mais recente, datado de 5 de janeiro de 2010, conforme mostrou a reportagem de ontem da Folha de S. Paulo, a diplomacia dos EUA fala sobre usar o ministro Nelson Jobim para convencer o presidente Lula. "Nós sabemos que o Super Hornet [F-18] recebeu a avaliação técnica mais favorável da FAB e é a escolha dos pilotos", afirma um trecho do documento. "Mas permanece, porém, o formidável obstáculo de convencer Lula. Nosso objetivo agora deve ser garantir que Jobim tenha argumentos reforçados ao máximo possível para ir a Lula (...)."



