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Herança da ditadura

Lista de torturadores causa pouca comoção

Repercussão fraca sobre a divulgação do acervo da viúva do líder comunista Luís Carlos Prestes mostra que país já não se abala tanto com os crimes políticos

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A divulgação de uma lista com nomes de 233 supostos torturadores que teriam agido durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) causou algum barulho nos últimos dias de 2011. Alguns militares da re­­­­serva estrilaram. Membros de organizações de direitos hu­­­­manos se pronunciaram. Mas não houve maiores repercussões. Isso mesmo se tratando de uma lista elaborada pelos próprios torturados – 35 integrantes do antigo PCdoB fizeram a relação.

Os papéis faziam parte do acervo pessoal de Luís Carlos Prestes (1898-1990), principal líder socialista do país no século 20, e foram divulgados depois que sua viúva, Maria Prestes, decidiu doá-los ao Arquivo Nacional, em dezembro. A Revista de História, da Biblioteca Nacional, fez uma série de reportagens sobre o material em sua edição de janeiro e publicou os 233 nomes.

A reação dos militares se li­­­mi­­­tou à manifestação de alguns oficiais reformados. O general Clóvis Bandeira, vice-presidente do Clube Militar, criticou a postura da revista, por ser ligada a um órgão público, a Biblioteca Nacional. "Não deixa dúvida de que lado está o órgão público", disse. O presidente da Asso­­­ciação dos Oficiais Militares Estaduais do Brasil, coronel Abel­­­­mídio Sá Ribas, disse que a situação criava "um conflito gratuito". Mas foi só.

Especialistas afirmam que a ausência de maiores confrontos entre os militares (incluindo os acusados de tortura) e representantes da esquerda ou de movimentos de direitos humanos mostra que, com o passar do tempo, os ânimos em torno do regime militar arrefeceram. Em parte porque a Lei da Anistia acabou com a possibilidade de punição a quem cometeu crimes políticos. Em parte porque muito tempo já se passou desde o auge da ditadura, e as novas gerações não estariam preocupadas com o tema.

Comodismo

A discordância, porém, é sobre o que isso significa para o país. Há quem acredite que esquecer os crimes do regime militar seja o melhor para o Brasil. Há quem pense, por outro lado, que isso faz parte de um processo de acomodação que não tem apenas aspectos positivos.

O coronel da reserva Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, por exemplo, diz que não é prudente arriscar a estabilidade já obtida. "É muito cedo para falar nisso. Essa lista não trouxe grandes novidades. Mas quando você começa a mexer na superfície, sempre pode encontrar algo em uma camada inferior. E nem sempre isso é bom", diz.

Por outro lado, lembra o cientista político Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná, a tranquilidade do país com a divulgação de uma lista de torturadores mostra que o Brasil reage com intensidade bem menor a crimes políticos do que ocorre na vizinha Argentina, por exemplo. "Lá existe o que eles chamam de ‘escracho’. Se alguém cometeu crimes políticos, a po­­pulação marca em cima, atormenta a pessoa para deixar claro o repúdio", diz.

Octaciano Nogueira, cientista político da Universidade de Brasília, concorda que falta ao brasileiro a passionalidade sobre o tema. "O tempo ameniza a animosidade em torno desses fatos", diz. Isso faz crer que outras revelações que vem à tona em relação à ditadura, com o início dos trabalhos da Comissão da Ver­­­dade, por exemplo, não deverão ameaçar a tranquilidade do país. "Cada vez os grupos envolvidos nessa discussão são mais restritos", afirma.

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