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Debate

Meus manos parentes de rua

Reportagem faz incursão à Vila Boa Vista, no bairro São Miguel, em busca de histórias que ilustrem por que os temas família, infância, adolescência e juventude mobilizam o debate social em Curitiba

Alexandre Pedroso Bueno, de 19 anos: evasão escolar, desemprego e medo da violência – um jovem da periferia em 3 X 4. | Fotos: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo
Alexandre Pedroso Bueno, de 19 anos: evasão escolar, desemprego e medo da violência – um jovem da periferia em 3 X 4. (Foto: Fotos: Giuliano Gomes/Gazeta do Povo)

"Agosto, mês do desgosto". No último dia 1º, o ditado popular fazia todo sentido nas ribanceiras do Bela Vista 2, favela onde vivem 358 famílias, no Bolsão Sabará, Zona Sul de Curitiba. Na noite anterior, um jovem de 18 anos fora assassinado por dever dinheiro ao tráfico. Era moço de família conhecida da vila. Houve comoção. O povo, em caravana, subia as ruelas esburacadas para ir ao velório, numa cena digna de cinema. No primeiro plano estava "D.", 14 anos, visual rapper de cima a baixo, e sua mãe desesperada. Ajudada pela líder comunitária Nina Góis, a mulher desviava do cortejo e tentava , em vão, convencer o filho a deixar o bairro e a se refugiar, "até a poeira abaixar", numa cidade da região metropolitana: o guri tinha visto o crime e podia ser chamado para um acerto de contas. Depois de muita peleja, a operação de resgate de "D." dá certo.

Semana passada, a reportagem da Gazeta do Povo voltou ao Bela Vista atrás dos personagens dessa história. O crime de dias atrás tinha virado notícia velha. "D." voltou para casa. Sua mãe trabalhava fora. Nina continuava seu acompanhamento às famílias, de porta em porta. Dava para ver os guris – crianças e adolescentes – eles são 50% da população da vila – soltando pipa e a mulherada batendo papo nas cerquinhas de madeira. A paz parecia restabelecida na área mais pobre do bolsão.

Para Alexandre Pedroso Bueno, 19 anos, no entanto, nem tudo está tão normal assim. Alto, magro e tímido, o jovem pensa mais no colega de vila assassinado do que na mudança para a casa nova, para onde vai em companhia da mãe e de um irmão mais velho. Ele mal conhecia o falecido, mas sabe exatamente o que acontece com a parcela da mocidade do Sabará envolvida com entorpecentes. Três dos seus melhores amigos de infância foram abatidos em situações semelhantes. Eram seus manos parentes de rua. A lembrança recente da sucessão de tragédias não lhe fez bem. Distrai-se ensinando a meninada da rua a mexer no celular. "Essa situação me dá medo", comenta, o rapaz.

Seu caso é típico. Abandonou a escola na 6ª série. Além de pouco atraído pelos estudos, descobriu que a sala de aula tinha virado uma sucursal da venda de drogas na região, o que lhe causa calafrios só de lembrar. "A gente é muito assediado. Resisti a tudo por amor a minha mãe. Mas não deu para continuar os estudos. O sacrifício não ia valer a pena. Mesmo que eu ficasse, jamais teria como cursar uma faculdade", comenta o hoje candidato ao subemprego. Alexandre já trabalhou de servente de pedreiro, a R$ 25 por dia. Há pouco ganhou as contas numa pequena confecção e tem sido barrado nas seleções por conta da baixa escolaridade e falta de qualificação. Seus sonhos são modestíssimos: se um dia ganhar R$ 600 por mês vai se sentir ganhador da loteca.

Alexandre, Nina, "D." e sua mãe são protagonistas da pobreza, da falta de trabalho e das péssimas condições de moradia nas rebarbas da capital. São também personagens principais de dramas bem específicos, para os quais os candidatos precisam apresentar propostas minimamente convincentes. A mãe de "D.", por exemplo, carece de uma política pública que acompanhe as famílias que vêem a violência bater à porta de casa. O esforço de Nina em ajudar é louvável, mas é em vão se as escolas da região, às quais percorre em busca de vagas para meninos e meninas como "D.", romperem seu pacto com a população, o que acontece numa freqüência assombrosa.

No outro extremo está Alexandre, o moço que resistiu à criminalidade, mas sucumbe diante dos baixos índices juvenis. Levantamento recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que 46,6% dos jovens brasileiros estão desempregados – 66% não estudam. É o Juízo Final. Romanticamente apontado como futuro da nação, gente como Alexandre patina na falta de perspectivas. Com sorte, vai ser um pacato cidadão do reassentamento.

"Não temos uma política para a juventude. Não há investimentos na promoção desses rapazes. Isso se alcança numa gestão diferenciada. A administração pública de Curitiba é tecnocrata", esbraveja o geógrafo Francisco Mendonça, da UFPR. Não se trata de exagero. O tom de voz usado entre os profissionais direta e indiretamente ligados a questões como família, infância, adolescência e juventude é mesmo alguns decibéis acima. São pés-de-briga.

Há 18 anos, pelo menos, é assim. Desde a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), consolidou-se no Brasil um exército de defensores da teoria da proteção integral à infância e, por tabela, das políticas voltadas para a família e para a juventude. Esses agentes apaixonados são, no melhor sentido da palavra, uma pedra no sapato de quem faz corpo-mole nas políticas públicas voltadas ao setor. Por essas e outras, têm conhecimento de causa para esquentar o debate eleitoral. É o que se espera com disposição de atleta olímpico.

Rede de proteção

Um lugar de Curitiba, o Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi), no Tarum㠖 ainda conhecido como Delegacia do Adolescente –, serve de parâmetro para avaliar o saldo entre a soma de esforços da rede de proteção e o abandono declarado de parte da sociedade a seus pobres moços. Na sala de espera, pais esperam para saber dos filhos que passam pelo sistema, onde podem permanecer até 45 dias até receberem sentença. Ao lado, no escritório do promotor de Justiça Salvari José Dias, 54 anos, as histórias que viveram ganham data, local e, comumente, contornos de de tragédia. É ali que se fica sabendo do delito, mas também da família agressora, do bairro engolido por bocas-de-fumo, da pobreza ultrajante, da escola intolerante, do empresário que não adere aos programas de aprendizagem, do jovem que transforma o delito num estilo de vida. Salvari vai ao Boa Vista sem sair da mesa.

"Uma instituição terceiriza para outra o problema da adolescência e da juventude. A sociedade é violenta, mas o maior agressor é a família. A pobreza, claro, acentua tudo isso. As drogas, idem: 50% dos adolescentes que passam por aqui são usuários", resume a ópera, de posse de estatísticas de tirar o sono. A média de processos envolvendo meninos e meninas em conflito com a lei é de dois mil ao ano.

Num cálculo imperfeito, pode-se dividir os 295 mil curitibanos entre 10 e 18 anos pelo número de processos: descobre-se que um a cada 147 adolescentes passam pelo Ciaadi. Desses, 13% cumprem medida socioeducativa em algumas das unidades do governo do estado. Uma barbaridade. Ocorre que nos últimos meses o plácido Salvari teve alguma folga. O movimento em sua sala diminuiu cerca de 30%. "Tem muitos garotos trabalhando nas eleições", explica. Esta matéria bem poderia ter começado por aí.

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