
A oposição na Assembleia Legislativa do Paraná culpou ontem a própria Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa) de ter atrapalhado o negócio de compra, por entidades ligadas ao governo, das ações do Terminal Portuário da Ponta do Félix, em Antonina. As ações (42% do terminal) pertenciam à Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. A suspeita foi levantada após o depoimento do ex-presidente da Fundação Copel, Edílson Bertholdo, na Comissão de Fiscalização da Assembleia. O governador Roberto Requião recentemente cobrou a razão de a fundação não ter fechado o negócio.Para o líder da oposição, Élio Rusch (DEM), o relato de Bertholdo reforçou a suspeita de que foi um "negócio nebuloso e que envolveu interesses específicos da própria Appa ou de pessoas ligadas a ela". O deputado acusou ainda o governo de estar procurando um culpado pelo fato de as ações da Previ terem sido vendidas a uma empresa privada. Para ele, as evidências apontam para uma ingerência da Appa, que atrapalhou o negócio. "Foram as ações do próprio governo que inviabilizaram as negociações", declarou.A Appa, segundo Rusch, já sabia da intenção de venda das ações da Previ desde 2008, quando o superintendente do Porto de Paranaguá ainda era Eduardo Requião, irmão do governador. Segundo Rusch, a Appa não fez nenhuma proposta de compra naquela ocasião. "Agora alega que não sabia de nada", disse.Entre os documentos apresentados por Bertholdo durante a audiência, alguns chamaram a atenção dos deputados porque mostram ligações entre Eduardo Requião e a diretoria da Equiplan, empresa que comprou as ações da Previ. "Numa das correspondências, a Equiplan agradecia o empenho do Eduardo, já como secretário de Representação do Paraná, em Brasília", disse o deputado Reni Pereira (PSB). A Gazeta do Povo tentou entrar em contato com Eduardo Requião no início da noite de ontem, mas não conseguiu localizá-lo. Também procurou o atual superintendente da Appa, Daniel Lúcio Oliveira de Souza, para falar sobre o assunto. Mas ele preferiu não se manifestar.
Depoimento
O ex-presidente da Fundação Copel Edílson Bertholdo havia sido acusado publicamente pelo governador Requião de ter contrariado ordens de comprar, por meio do fundo de pensão da Copel, as ações da Ponta do Félix que pertenciam à Previ.
Na Comissão de Fiscalização da Assembleia, Berholdo declarou aos deputados que nunca recebeu uma ordem formal do governo para que fossem compradas as ações. "Eu não tive nenhuma comunicação do patrocinador (a Copel)." Ele ainda declarou que o conselho deliberativo da Fundação Copel não voltou a se reunir para tratar da compra das ações da Previ porque a Appa manifestou, por meio de ofício, o interesse no negócio. "A reunião não foi convocada porque houve um entendimento de que o documento era suficiente para sustar qualquer processo de venda", justificou.
Depois de muita insistência do líder do governo, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), Bertholdo informou que o responsável pela convocação desse colegiado seria o presidente do Conselho Deliberativo da fundação, Marlos Gaio.
Os deputados também tentaram esclarecer ontem as suspeitas de que Bertholdo teria agido como lobista para favorecer a empresa Standard Logística na compra das ações da Previ. "Se buscar melhor resultados, que implica em favorecer o ativo (da fundação), então eu fiz lobby em favor dos participantes da Fundação Copel", afirmou Bertholdo. Segundo o raciocínio de Bertholdo, como a Fundação já tinha 20,41% das ações do terminal portuário, no caso da venda para a Standard, o valor de mercado da Ponta do Félix aumentaria o que seria bom para o fundo de pensão da Copel. Segundo ele, a Standard Logística apresentou uma proposta que poderia chegar a R$ 86 milhões, enquanto a da Equiplan era de R$ 64 milhões.
As afirmações do ex-presidente da Fundação Copel, porém, foram rebatidas pelo deputado Durval Amaral (DEM). Relator da investigação na Comissão de Fiscalização, Amaral afirmou que os documentos levados por Bertholdo para análise da comissão indicavam que ele havia feito lobby porque a oferta da Standard não era melhor, como ele alegava. "Na documentação que o senhor mesmo apresentou, o valor da proposta da Standard é de R$ 69 milhões, deduzido o valor de multas e empréstimos, o que parece efetivamente que o senhor fez lobby em favor da empresa", disse Amaral.




