O delegado autor do rap que virou hit nas duas rádios da pequena cidade de Igarapava, a 448 km de São Paulo, é engajado em projetos de defesa dos direitos humanos e afirma: policiais e bandidos pertencem à mesma classe social. Cloves Rodrigues da Costa, policial civil há 13 anos, diz também que a polícia ainda serve aos interesses das classes dominantes.
As reflexões de Costa são abordadas na letra de "Laços eternos", composta há cerca de um mês. Os primeiros versos saíram por acaso, inspirados em uma palestra da cineasta Tata Amaral no Centro de Direitos Humanos e Segurança Pública (CDH/SP) da Academia da Polícia Civil, na Cidade Universitária, Zona Oeste de São Paulo.
Delegado faz sucesso com rap do bem
O evento discutia o mais recente filme de Tata, "Antônia", sobre um grupo feminino de hip hop. "Já na palestra dela, eu fiz o refrão. Ela gostou, elogiou e fez um comentário. Puxa doutor, pode surgir um novo rapper. Aí eu fui estendendo e saiu a letra toda."
Nos versos, ele indica que policiais e bandidos têm a mesma origem social e ambos são marginalizados. "Vou desenvolvendo a letra fazendo uma crítica social sobre a sociedade, que é um grande rio e os dois estão na margem. O policial é tão excluído como o bandido. A sociedade discrimina o marginal, mas discrimina o policial também", diz Costa. "O policial e o marginal saem da mesma camada dos mais excluídos da sociedade, não saem da elite. Tem um verso em que eu falo da situação do policial que trabalha combatendo o marginal e no fim do dia volta pra casa - no mesmo lugar onde o marginal mora porque ele também é um excluído socialmente" , detalha o delegado. "Se a gente tiver consciência disso, vai ver que na verdade é irmão combatendo irmão. O policial pode ver o excluído de maneira melhor e o excluído pode ver melhor o trabalho da polícia."
Rumo às paradas
Depois de pronto, Costa mostrou o material para um amigo, dono de rádio. O companheiro ficou empolgado, montou um esquema de gravação em um estúdio e convenceu o delegado a cantar. A rádio criou um concurso para que os ouvintes descobrissem de quem era a voz da nova música. Em uma semana, ninguém descobriu. O jeito foi dar algumas dicas no ar e, enfim, alguém acertou. "A partir daí, o povo começou a pedir o rap na rádio. Depois a outra rádio começou a tocar também e agora (o rap) tá tomando conta da região."
Ele não imaginava o tamanho da repercussão. "Faz uma semana que revelaram meu nome. Eu passo pelas ruas da cidade, tá todo mundo falando. O som está sendo apreciado até por pessoas idosas que não gostam da música. É uma coisa espantosa isso."
Costa também ouve comentários sobre sua semelhança com o cantor romântico Amado Batista. "As pessoas dizem brincando que não acreditam que um cara tão parecido com ele fez um rap."
Apesar do sucesso e dos pedidos da população local, o delegado não pensa em compor novas músicas e nem gravar um CD. "Não tenho dom artístico, foi mais uma brincadeira. O meu interesse não é comercial. É de conscientização." Ele diz isso com a autoridade de quem montou na cadeia de Igarapava um projeto de alfabetização de detentos, criou ainda uma biblioteca no local e, uma vez por semana, viaja para São Paulo, para dar aulas de polícia comunitária.



