
Brasília - A disputa pelo cargo de procurador-geral da República está aberta e tem seus favoritos. O atual titular do cargo, Roberto Gurgel, tentará ser reconduzido pela presidente, Dilma Rousseff. Mas poderá ser desbancado por sua vice, a subprocuradora Deborah Duprat. O mandato de Gurgel termina em julho, mas a escolha dos nomes que serão entregues à presidente está prevista para abril.
O processo de sucessão deixou os bastidores do Ministério Público Federal (MPF) e passou a afetar as investigações em curso nos tribunais, mais claramente o inquérito sobre o mensalão do DEM no Distrito Federal. Isso ficou evidente com a revelação do vídeo em que a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) é flagrada recebendo dinheiro do delator do esquema, Durval Barbosa.
Em recentes declarações, Gurgel contestou o acordo de delação premiada firmado entre o MPF e Barbosa. A divulgação a conta-gotas de gravações feitas pelo delator do esquema, que estavam nas mãos do MPF, levou Gurgel a reclamar de suposto boicote que tem sofrido pelo grupo ligado à subprocuradora Raquel Dodge, condutora da investigação do mensalão do DEM.
Reservadamente, integrantes do MPF dizem que Deborah e Raquel fecharam um acordo pela sucessão do comando da instituição para os próximos anos. Em troca de apoio futuro, Raquel aceitaria não lançar seu nome à sucessão de Gurgel e apoiaria a candidatura de Deborah. Pelo acerto, Raquel seria a vice da colega. Ambas apostam que Dilma escolherá a primeira mulher para o MPF.
Irritação
Gurgel não escondeu a irritação em ser o último a saber sobre o vídeo em que Jaqueline Roriz recebe um pacote de dinheiro. A gravação foi entregue por Barbosa no fim de dezembro ao MPF. Mas, segundo Gurgel, só no fim de fevereiro ele foi informado da existência dela.
Após a revelação do conteúdo do vídeo, o procurador-geral da República pediu a abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Jaqueline, que, por ser deputada, tem foro privilegiado. Ao deixar uma entrevista coletiva na semana passada, foi irônico ao ser indagado por que só agora a existência veio à tona: "Se vocês souberem, me avisem".
O processo de sucessão na procuradoria se tornará público em breve com a provável candidatura de Gurgel e Deborah à vaga, além de outros subprocuradores, que podem entrar na disputa inscrevendo-se na eleição feita pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). Integrantes do governo dizem que a presidente deve prestigiar a categoria e se orientar pela listagem, mas não se verá obrigada a nomear necessariamente o mais votado.
Problemas para Dilma
A responsabilidade de parte dos problemas enfrentados pela presidente, Dilma Rousseff, nas eleições do ano passado é creditada a Roberto Gurgel, o que pode comprometer seus planos de permanecer por pelo menos mais dois anos no comando do MPF.
Gurgel indicou a subprocuradora Sandra Cureau para atuar como fiscal da campanha de 2010 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela é tida nos bastidores do MPF como ligada a Geraldo Brindeiro, procurador-geral da República durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. A atuação de Sandra provocou problemas na campanha de Dilma, a ponto de seus advogados temerem um processo de cassação de sua candidatura por abuso de poder político. Inicialmente, Gurgel não interferiu na atuação da subprocuradora. Foi visto por isso como um procurador sem pulso. Depois, foi obrigado a intervir e podar a atuação dela.
Por outro lado, sua concorrente no processo sucessório, Deborah Duprat, é apontada como alguém excessivamente independente, que poderia atuar de forma a criar problemas ao Planalto. Por conta disso, integrantes do governo disseram ter sido procurados por ela. Deborah estaria interessada em mostrar que sua fama seria exagerada eque não aprova atuações "pirotécnicas" do MPF.



