Existe uma concepção disseminada em amplas parcelas da sociedade de que a Região Sul e o Paraná, por conseqüência é o Brasil europeu, a parte do país que deu certo e que está chegando ao Primeiro Mundo. A idéia do "Sul Maravilha", porém, é apenas um mito que não resiste à confrontação com os indicadores socioeconômicos internacionalmente utilizados para medir o desenvolvimento das nações. Se o Paraná fosse um país independente, seria tipicamente latino-americano, com todos os problemas que acometem as nações das Américas do Sul e Central (veja infográfico). E é esse Paraná, cheio de desafios a serem vencidos, que será herdado pelo futuro governador a partir do ano que vem.
A concentração da renda é, sem dúvida, um dos piores problemas do estado, embora desde o fim da década passada o Paraná, juntamente com o Brasil, venha conseguindo melhorar a distribuição da riqueza. Ainda assim, a renda paranaense é tão mal distribuída que, se o estado fosse um país, ocuparia a desonrosa 15.ª posição dentre as nações com mais concentração de riqueza, de acordo com o Relatório de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas publicado no ano passado e que mediu a distribuição de renda de 124 países. O Paraná não seria tão desigual quanto o Brasil, mas teria uma distribuição de renda pior inclusive do que a de uma série de países africanos, como Nigéria, Camarões e Uganda.
Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), de 2000, mostra, por exemplo, que a parcela dos 20% de paranaenses mais pobres do estado fica com apenas 2,4% da renda estadual. No Japão, os 20% mais pobres abocanham uma proporção quatro vezes maior da riqueza nacional: 10,6%.
"O combate à desigualdade é prioritário se o estado quer chegar a um nível de país desenvolvido", diz o assessor de desenvolvimento humano do PNUD no Brasil, José Carlos Libânio. Segundo ele, a diminuição da desigualdade aumenta o bem-estar da população de uma forma geral, e não apenas dos mais pobres. A redução dos índices de criminalidade que no Paraná são tão altos como os do Brasil seria uma possível conseqüência de políticas de redistribuição de renda. "Desigualdade e pobreza são um caldo de cultura propício para a violência", afirma Libânio.
O sociólogo Paulo Delgado, pesquisador do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), afirma que a melhora da distribuição de renda está diretamente relacionada à oferta de empregos, sobretudo empregos de mais qualidade, com carteira assinada. "E isso é algo que está mais relacionado à política econômica nacional." No entanto, pondera Delgado, os governos estaduais também podem dar sua contribuição, por meio da oferta de uma educação que qualifique a mão-de-obra. "O estado não vai criar empregos. Isso depende da economia. Mas se os empregos aparecerem, o estado pode ajudar a fazer com que eles sejam ocupados por trabalhadores qualificados", diz Delgado.
O sociólogo ainda afirma que o governo estadual pode ofertar políticas de transferência de renda. No Paraná, cita ele, são exemplos desse tipo de política os programas de isenção da tarifa de luz para famílias carentes e a tarifa social da Sanepar cujos custos são financiados pelo Tesouro Estadual.
José Libânio, do PNUD, diz ainda que há estados que têm complementado o Bolsa Família do governo federal. Mas ele lembra que o mais importante para distribuir renda é criar empregos de qualidade. O crescimento de empregos com carteira assinada, segundo um estudo do PNUD, é a principal razão para a queda dos índices de desigualdade na distribuição de renda no país nos últimos anos. Depois, vêm os benefícios da Previdência Social. E só na terceira posição aparece o Bolsa Família.
O economista Nilson Maciel de Paula, professor da UFPR, diz que, no longo prazo, é preciso que haja desenvolvimento econômico. Até mesmo porque políticas de assistência social com vistas ao futuro são um ônus pesado para o estado, já que a parcela da população que vive em condições de pobreza é muito grande: 23,7% dos paranaenses, segundo dados de 2000 do PNUD, são pobres; e 9,27%, indigentes.
- Amanhã, leia os desafios do próximo governador para aumentar o crescimento econômico do Paraná.



